terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As botas do gigante

Hoje, em doce flanerie pelo centro da cidade, na companhia de Sofia, depois de comprarmos revistinhas da Mônica e do Cebolinha, resolvemos visitar as botas do gigante, no Museu Julio de Castilhos.

Sempre que posso, visito as botas do gigante. Certa vez, lá se vão anos, li para a Maíra, minha filha mais velha, a história de João e o Pé de Feijão. Como ela ficasse incrédula, levei-a ao museu e mostrei-lhe as botas, como prova irretorquível de que existem gigantes. E hoje, quis repetir a experiência com Sofia, a filha mais nova. Quis mostrar-lhe as botas, que são talvez o objeto mais raro e mais estranho da história do Rio Grande do Sul. Porque as outras quinquilharias do museu são previsíveis, são comuns e encontráveis em qualquer acervo, inclusive em museus particulares no interior. E além do mais, em geral, são objetos heróicos, manchados de sangue, símbolos de nossa intolerância, violência e estupidez. Mas as botas do gigante não. Elas são prosaicas, vivas, inocentes. Elas são curiosas, e provam que aqui viveu uma aberração da natureza, um homem gigantesco. Junto às botas, havia uma foto fantástica, que provava mais uma vez que as botas tinham dono, que não foram feitas por algum sapateiro brincalhão.

Entramos e fomos avisados que não se pode mais visitar aquele par de relíquias. Segundo um funcionário, as botas foram escondidas, não estão mais em exposição, por ordem do diretor.

Perguntei por que e a resposta que ouvi foi esta:

"Por que elas eram muito visitadas... O diretor quer se valorize outras coisas expostas no museu..."

Ah, entendi... A política cultural do estado-atual-a-que-chegamos é esconder as botas! Economizar talento, economizar gerenciamento, economizar visão pública.

Estou, mais uma vez, literalmente, embasbacado. Em que, mesmo, as botas incomodavam o Museu Julio de Castilhos? Atraíam público? Elaboravam demais o fetiche do tamanho, tão caro ao guasca gaudério? Concorriam em ostronenie com alguém do governo?

Segundo o mesmo funcionário, as botas atraíam muitos visitantes que, uma vez lá dentro, visitavam outras partes do museu.

Governadora, Vossa Excelência já nos tirou muitas coisas, mas, por favor, devolva-nos as botas do gigante!

Como é que nossos filhos vão acreditar em contos da carrochinha, como é que vamos acreditar na política (é mais fácil acreditar em mitos literários, não é mesmo?) se a prova cabal da existência do Pé-de-Feijão foi retirada do museu?

17 comentários:

  1. Anônimo5/1/10 08:28

    Perfeito!!! Adorei. Maria Lucia Campani

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  2. Esperar o que de um governo que tem como "lema" Coragem para Fazer?

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  3. Também estou embasbacada....

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  4. Anônimo5/1/10 09:22

    Mais uma "gauderiada". As botas atraem muito público, então esconda-se as botas. É típico nosso. Não sei de onde "herdamos" essa cultura da mesquinhez, mas certamente deveria ser alvo de estudo. Como no caso do pontal do estaleiro. Alguém vai ganhar dinheiro com um empreendimento ? Rios de dinheiro ? Então somos contra. Vamos deixar o local apenas para os mendigos e fumadores de crack. Melhor do que ver alguém ganhar dinheiro. Como essas malditas botas que atraem tanta gente. Charles, tenho que admitir - temos um quê de patético. Ass. Um aluno.

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  5. Vamos avisar ao Louvre para que esconda a Mona Lisa.

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  6. que absurdo!!!!!!
    típico pensamento pequeno que reina por aqui!!!
    na luta da mesquinharia anã contra as botas gigantes, a cultura sai perdendo

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  7. que ato pequeno o de esconder as botas gigantes. uma pena.

    e aquela ali é a livraria El Ateneu? :))

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  8. Alguém falou em mesquinhez. Não concordo. É ignorância e burrice, mesmo, em estado puro.
    Pobres de nós...

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  9. Alexandro Juchtechchen6/1/10 10:31

    Nossa mediocridade é repugnante, até quando viveremos num estado onde a melhor forma de promover algo é escondendo outro? Neste governo destrambelhado já ví de tudo mas agora beira ao insano o ato do ditador, quer dizer diretor.

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  10. Anônimo6/1/10 12:44

    Penso que visitar um museu é bem mais do que ver coisas esdrúxulas, estranhas. É um pensamento do século XIX,quando conquistadores traziam o espólio das conquistas, coisas desconhecidas de um mundo tão grande. Mediocridade é desconheçer a cruel história daquele personagem,o tal "gigante", tratado como objeto de circo. Esses comentarios só mostram o quanto a sociedade continua sendo mesquinha, excludente e intransigente com o diferente. Que tal abrir os olhos para a realidade e perceber o contexto social da época? Alías o encurtameto do pensamento é das pessoas que pensam que museu é gabinete de curiosidades e velharias. Triste a ignorancia.

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  11. Júlia Agustoni7/1/10 05:47

    Para quem é visitante é difícil entender o que é nexo expositivo. Como estudante de Museologia, apóio a decisão da atual gestão do Museu Julio de Castilhos de retirar de exposição as botas do gigante. Em que contexto ela seria exposta, nas atuais salas de exposição do Museu? Na sala Farroupilha? Missioneira? Museu não é gabinete de curiosidades, não é uma instituição estática, e isso já mudou faz tempo. A Mona Lisa, Ana Mariano, está inserida no contexto do museu de arte, ela não precisa ser "escondida" (e o "esconder" que vocês relatam, no Museu Julio, trata-se da reserva técnica, onde as peças são tratadas e conservadas quando não estão em exposição, e não um calabouço). Quando ouço falar em ignorância e pensamento pequeno penso em vocês, que imaginam que museu é só uma vitrine daquilo que querem ver.

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  12. Júlia Agustoni7/1/10 05:55

    E digo mais: o Museu Julio de Castilhos tem em seu acervo cerca de 11 mil peças. Vocês pretendem que TODAS elas, sem excessão, sejam expostas? E caso não sejam, acusarão o Museu de "escondê-las"? Ressalto que esta situação não é exclusividade do Museu Julio de Castilhos, então o senhor Charles Kiefer terá muito trabalho "denunciando" todas instituições.

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  13. Concordo com o comentário da Júlia Agustoni. Quem já trabalhou em espaços culturais estaduais como eu sabe as limitações que um museu como o Julio de Castilhos sofre ou tem. Mal se consegue realizar uma exposição temporária por falta de verba e ainda exigem folderzinho explicativo sobre as obras resguardadas em reserva técnica? Isso é piada, né? Criticou tanto o modelo europeu, mas essa de pedir folder, convenhamos, só na Europa! Aqui temos outra realidade e tu, por já ter ocupado cargos na cultura, deveria saber muito bem disso. E tenho dito.

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  14. Gabriela9/1/10 11:55

    É Charles, gosto muito do teu blog, mas dessa vez acho que não tem muito fundamento a tua crítica. Esses dias também visitei o museu Julio de Castilhos, pois recebi o convite de uma exposição por e-mail e gostei muito do que vi, mesmo sem a "bota do gigante".

    Abraço.

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  15. Sou estudante de museologia e não partilho das mesmas opiniões acima. Acredito na capacidade discursiva do museu em explorar o lado lúdico, fantástico e curioso de determinados fatos sem comprometer a fruição do visitante em seu percurso pelos limites contextuais de sua história. O museu é um campo de possibilidades. Todo discurso produzido em seu interior, seja de cunho fantástico ou científico, corresponde a sentidos atribuídos por indivíduos em permanente mudança no tempo e espaço. Neste sentido, o museu nunca será uma instituição estática.

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  16. Anônimo6/9/14 14:01

    que pena, quando eu era pequena visitei muitas vezes as botas do gigante, quer dizer que meus netos nao vao poder conhecer?

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