sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Uma célula só
Antes da partenogênese inicial, e por uns trinta minutos, todos nós fomos uma célula só.
Agora, buscamos essa unidade perdida no amor, na arte, as únicas coisas capazes de oferecer uma pequena ilusão de integridade e permanência neste mundo em acelerado processo de desagregação.
Agora, buscamos essa unidade perdida no amor, na arte, as únicas coisas capazes de oferecer uma pequena ilusão de integridade e permanência neste mundo em acelerado processo de desagregação.
Sobre as mulheres de escritores
Este texto encontra-se agora em Para ser escritor, Editora Leya, 2010.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Dez grandes contos de mulheres
No dia 08 de março, como já afirmei aqui, vou lançar uma nova antologia de contos escritos exclusivamente por mulheres, o Outras mulheres, que reúne contos de 16 alunas de minhas oficinas literárias, contos escolhidos por concurso, do qual participaram mais de 80 escritoras.
Enquanto o livro não chega às livrarias, indico aqui a lista de meus 10 contos preferidos escritos por grandes escritoras de vários países. A ordem é a aleatória, não segue sequer a alfabética. O que significa dizer que não tenho preferência de classificação por nenhum deles. São apenas 10 contos de que gosto muito. Poderiam ser 100.
1) “Um bom homem é difícil de encontrar”, de Flanery O´Connor (EUA)
2) “O passarinho dos domingos”, de María de Montserrat (Uruguai)
3) “Um tiro de misericórdia”, de Marguerite Yourcenar (França)
4) “Mãe”, de Lídia Seifullina (Rússia)
5) “Uma xícara de chá”, de Katherine Mansfield (Nova Zelândia)
6) “Big Loira”, de Dorothy Parker (EUA)
7) “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector (Brasil)
8) “Venha ver o pôr-de-sol”, Lígia Fagundes Telles (Brasil)
9) “A figueira de Judas”, de Katherine Anne Porter (EUA)
10) “A duquesa e o joalheiro”, de Virginia Woolf (Inglaterra)
Não é por acaso que incluí 3 autoras norte-americanas. Poderia fazer a lista somente com escritoras do país do Norte. Em nenhum lugar do mundo a mulher é tão respeitada quanto lá.
Sem igualdade e sem respeito, fica difícil escrever, não é mesmo, gurias?
Enquanto o livro não chega às livrarias, indico aqui a lista de meus 10 contos preferidos escritos por grandes escritoras de vários países. A ordem é a aleatória, não segue sequer a alfabética. O que significa dizer que não tenho preferência de classificação por nenhum deles. São apenas 10 contos de que gosto muito. Poderiam ser 100.
1) “Um bom homem é difícil de encontrar”, de Flanery O´Connor (EUA)
2) “O passarinho dos domingos”, de María de Montserrat (Uruguai)
3) “Um tiro de misericórdia”, de Marguerite Yourcenar (França)
4) “Mãe”, de Lídia Seifullina (Rússia)
5) “Uma xícara de chá”, de Katherine Mansfield (Nova Zelândia)
6) “Big Loira”, de Dorothy Parker (EUA)
7) “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector (Brasil)
8) “Venha ver o pôr-de-sol”, Lígia Fagundes Telles (Brasil)
9) “A figueira de Judas”, de Katherine Anne Porter (EUA)
10) “A duquesa e o joalheiro”, de Virginia Woolf (Inglaterra)
Não é por acaso que incluí 3 autoras norte-americanas. Poderia fazer a lista somente com escritoras do país do Norte. Em nenhum lugar do mundo a mulher é tão respeitada quanto lá.
Sem igualdade e sem respeito, fica difícil escrever, não é mesmo, gurias?
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Torneio de xadrez
No sábado, 11 de janeiro, na Livraria Palavraria, fizemos um Torneio de Xadrez entre os participantes das minhas oficinas literárias.
Juarez Guedes Cruz, grande contista, organizou tudo. Fez as tabelas de emparceiramento, trouxe os tabuleiros produzidos em pano por sua esposa, e venceu. A rigor, todos esperavam que isso acontecesse. Quem já se defrontou com o Juarez sabe que ele não só maneja bem as peças da literatura. Bispos, cavalos e torres, no tabuleiro do Juarez, são ferozes. Suspeito, até, que este nome “Juarez”, seja uma corruptela lingüística de “ajedrez”. Se não for, é uma excelente rima!
Joguei um pouco de xadrez no passado, fui aluno de Serpa, bicampeão estadual, freqüentei o Clube Metrópole. Mas quando compreendi a profundidade da minha ignorância enxadrística, desisti. O campo teórico do xadrez é infinito, e o prático, inalcançável para quem não se dispõe a praticar e praticar e praticar.
Desse meu passeio pelo mundo do xadrez, restou um conto, que publiquei nos anos 80. Ele está na Antologia pessoal, livro que me deu a terceira estatueta do Prêmio Jabuti, em 1999. Pelo visto, sempre fui melhor contista que enxadrista.
Mas admiro muito o jogo e os jogadores de xadrez. Pela complexidade, pela beleza, pela inutilidade. O lúdico é isto, algo que se esgota em si mesmo, pelo simples prazer de ser.
Lá, no passado, imaginei uma história simples, de um homem que dedicou a vida ao xadrez e que chegou a uma grande final. Nós, que escrevemos, sabemos tudo sobre os nossos personagens. Pois eu sabia de cor a partida em que meu personagem sacrificava um cavalo e perdia por tempo. Desde então, vi milhares de partidas, em livros, em computadores, sobre os tabuleiros (jogo, às vezes, com meu genro. Já que ele ganhou a filha, de vez em quando obrigo-o a perder a dama), mas nunca encontrei uma variante parecida com a minha. Até sábado. Na partida entre Pena Cabreira e Beto Canales, a partida do meu conto realizou-se diante dos meus olhos. Mas o Pena, que é completamente diferente do personagem do conto, sacrificou o cavalo, arrematou a partida e ficou em segundo lugar no Torneio.
Por isso, desde sábado, o velho conto ganhou uma dedicatória. Em novas edições em livro, ela estará lá também.
Como dizia Nietzsche, num universo de infinitas possibilidades todas as possibilidades são possíveis, até mesmo uma partida de xadrez repetir, na vida real, o que sonhou um escritor.
Juarez Guedes Cruz, grande contista, organizou tudo. Fez as tabelas de emparceiramento, trouxe os tabuleiros produzidos em pano por sua esposa, e venceu. A rigor, todos esperavam que isso acontecesse. Quem já se defrontou com o Juarez sabe que ele não só maneja bem as peças da literatura. Bispos, cavalos e torres, no tabuleiro do Juarez, são ferozes. Suspeito, até, que este nome “Juarez”, seja uma corruptela lingüística de “ajedrez”. Se não for, é uma excelente rima!
Joguei um pouco de xadrez no passado, fui aluno de Serpa, bicampeão estadual, freqüentei o Clube Metrópole. Mas quando compreendi a profundidade da minha ignorância enxadrística, desisti. O campo teórico do xadrez é infinito, e o prático, inalcançável para quem não se dispõe a praticar e praticar e praticar.
Desse meu passeio pelo mundo do xadrez, restou um conto, que publiquei nos anos 80. Ele está na Antologia pessoal, livro que me deu a terceira estatueta do Prêmio Jabuti, em 1999. Pelo visto, sempre fui melhor contista que enxadrista.
Mas admiro muito o jogo e os jogadores de xadrez. Pela complexidade, pela beleza, pela inutilidade. O lúdico é isto, algo que se esgota em si mesmo, pelo simples prazer de ser.
Lá, no passado, imaginei uma história simples, de um homem que dedicou a vida ao xadrez e que chegou a uma grande final. Nós, que escrevemos, sabemos tudo sobre os nossos personagens. Pois eu sabia de cor a partida em que meu personagem sacrificava um cavalo e perdia por tempo. Desde então, vi milhares de partidas, em livros, em computadores, sobre os tabuleiros (jogo, às vezes, com meu genro. Já que ele ganhou a filha, de vez em quando obrigo-o a perder a dama), mas nunca encontrei uma variante parecida com a minha. Até sábado. Na partida entre Pena Cabreira e Beto Canales, a partida do meu conto realizou-se diante dos meus olhos. Mas o Pena, que é completamente diferente do personagem do conto, sacrificou o cavalo, arrematou a partida e ficou em segundo lugar no Torneio.
Por isso, desde sábado, o velho conto ganhou uma dedicatória. Em novas edições em livro, ela estará lá também.
Como dizia Nietzsche, num universo de infinitas possibilidades todas as possibilidades são possíveis, até mesmo uma partida de xadrez repetir, na vida real, o que sonhou um escritor.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Sacrifício de cavalo (Conto)
(Para Pena Cabreira)
Tinha, enfim, conseguido. Depois de muitos anos de treinamento rigoroso, privações, milhares de partidas de grandes mestres estudadas e decoradas, intermináveis exercícios táticos e estratégicos, estava a um movimento de desencadear a possível variante que o levaria, através do sacrifício de seu último cavalo, à vitória e ao título.
Uma vida inteira dedicada a este instante: um casamento fracassado — a mulher não suportara a sua obsessão, não podia compreender tamanha paixão por um jogo que se esgotava em si mesmo, que a nada levava, que nada produzia — e uma carreira profissional em ascensão barrada por peões passados, torres em sétima e bispos em fianqueto.
Avaliou e reavaliou a situação: tinha vantagens teóricas evidentes, cadeia de peões contra peões isolados, todas as peças ligeiras bem desenvolvidas, dama com maior mobilidade, além do violentíssimo impacto psicológico que o seu próximo lance desencadearia na alma do oponente.
Sorriu, antegozando o prazer de esmagá-lo. Já podia comemorar o título, alguns lances a mais e o inimigo estenderia a mão, rendido, humilhado.
Levantou o cavalo, a mão úmida tremeu. “Sacrificar um cavalo”, pensou. “Um cavalo...“ Manteve a peça no ar uma eternidade, indeciso ainda.
O sacrifício de uma peça gera sobre o tabuleiro uma verdadeira tempestade, quebra toda a harmonia, instaura o caos. E ele amava a ordem, a lógica precisa e retilínea, o jogo posicional. Era imprescindível reavaliar a situação. E se o Outro, hábil caçador, farejasse o perigo e recusasse a oferta? Se sob aquela fraqueza estrutural tão evidente se esgueirasse um terrível e pantanoso golpe tático, uma daquelas seqüências crípticas, demoníacas, tão freqüentes no mais amaldiçoado dos jogos?
A mão suspensa, ouvia o tiquetaquear do relógio, mas não desviou os olhos, a menor desconcentração podia ser fatal. Teve a nítida impressão de ouvir risos, velados ainda, é verdade, mas que cresciam e se transformavam em chacota. Uma vida inteira. Anos a fio, dia após dia, jogando, jogando, jogando, correndo atrás da fugaz alegria, sofrendo o brutal esmagamento do ego, empurrando peões montanha acima. Precisava reconhecer, era um jogador medíocre, dos que ao final de uma vida de disciplina espartana e incessantes estudos perdem fragorosamente para crianças-prodígios, esses seres tocados pelo Grande Arquiteto. Lembrou de Mequinho, Bob Fischer e Judith Polgar.
Segurou o cavalo no ar e sentiu uma dor funda, a súbita compreensão de sua insignificância. Nem era preciso procurar muito longe. Ali, no próprio torneio, havia dezenas de jogadores melhores do que ele. Era um miserável, dos que no cinema lotado sempre encontram um lugar vago exatamente atrás de um grandalhão que lhes impede qualquer visão da tela. Mas aquela era a sua chance, o momento esperado há tantos anos. Sacrificaria o cavalo, instauraria a confusão generalizada nas tropas inimigas e arremataria de forma brilhante. Além do título de campeão, receberia o prêmio de melhor partida.
Era só lançar o cavalo contra o peão protegido.
“Sacrificar um cavalo...“, pensou. “Um cavalo...“
Ia retomar a análise, mas o adversário já sorria e apontava-lhe a seta do relógio caída.
Tinha, enfim, conseguido. Depois de muitos anos de treinamento rigoroso, privações, milhares de partidas de grandes mestres estudadas e decoradas, intermináveis exercícios táticos e estratégicos, estava a um movimento de desencadear a possível variante que o levaria, através do sacrifício de seu último cavalo, à vitória e ao título.
Uma vida inteira dedicada a este instante: um casamento fracassado — a mulher não suportara a sua obsessão, não podia compreender tamanha paixão por um jogo que se esgotava em si mesmo, que a nada levava, que nada produzia — e uma carreira profissional em ascensão barrada por peões passados, torres em sétima e bispos em fianqueto.
Avaliou e reavaliou a situação: tinha vantagens teóricas evidentes, cadeia de peões contra peões isolados, todas as peças ligeiras bem desenvolvidas, dama com maior mobilidade, além do violentíssimo impacto psicológico que o seu próximo lance desencadearia na alma do oponente.
Sorriu, antegozando o prazer de esmagá-lo. Já podia comemorar o título, alguns lances a mais e o inimigo estenderia a mão, rendido, humilhado.
Levantou o cavalo, a mão úmida tremeu. “Sacrificar um cavalo”, pensou. “Um cavalo...“ Manteve a peça no ar uma eternidade, indeciso ainda.
O sacrifício de uma peça gera sobre o tabuleiro uma verdadeira tempestade, quebra toda a harmonia, instaura o caos. E ele amava a ordem, a lógica precisa e retilínea, o jogo posicional. Era imprescindível reavaliar a situação. E se o Outro, hábil caçador, farejasse o perigo e recusasse a oferta? Se sob aquela fraqueza estrutural tão evidente se esgueirasse um terrível e pantanoso golpe tático, uma daquelas seqüências crípticas, demoníacas, tão freqüentes no mais amaldiçoado dos jogos?
A mão suspensa, ouvia o tiquetaquear do relógio, mas não desviou os olhos, a menor desconcentração podia ser fatal. Teve a nítida impressão de ouvir risos, velados ainda, é verdade, mas que cresciam e se transformavam em chacota. Uma vida inteira. Anos a fio, dia após dia, jogando, jogando, jogando, correndo atrás da fugaz alegria, sofrendo o brutal esmagamento do ego, empurrando peões montanha acima. Precisava reconhecer, era um jogador medíocre, dos que ao final de uma vida de disciplina espartana e incessantes estudos perdem fragorosamente para crianças-prodígios, esses seres tocados pelo Grande Arquiteto. Lembrou de Mequinho, Bob Fischer e Judith Polgar.
Segurou o cavalo no ar e sentiu uma dor funda, a súbita compreensão de sua insignificância. Nem era preciso procurar muito longe. Ali, no próprio torneio, havia dezenas de jogadores melhores do que ele. Era um miserável, dos que no cinema lotado sempre encontram um lugar vago exatamente atrás de um grandalhão que lhes impede qualquer visão da tela. Mas aquela era a sua chance, o momento esperado há tantos anos. Sacrificaria o cavalo, instauraria a confusão generalizada nas tropas inimigas e arremataria de forma brilhante. Além do título de campeão, receberia o prêmio de melhor partida.
Era só lançar o cavalo contra o peão protegido.
“Sacrificar um cavalo...“, pensou. “Um cavalo...“
Ia retomar a análise, mas o adversário já sorria e apontava-lhe a seta do relógio caída.
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