terça-feira, 8 de junho de 2010

A arara vermelha

Entre as muitas teses que tenho a respeito do conto e de seu processo de composição, há uma que se consolidada cada vez mais.

Um conto deve ser pensado longamente, mas escrito rapidamente.

Não importa o tempo que se leve, depois, a retocá-lo, a reescrevê-lo.

Durante 32 anos (isto mesmo, trinta e dois anos) acalentei a idéia de um conto. E hoje, depois de três décadas a observá-lo, a pensá-lo, arranquei-o de mim. Chama-se A arara vermelha.

Escrever contos é como pintar paredes. Se interrompemos a pintura, para continuá-la num outro dia, ao retomá-la, restarão as marcas das junções. A tinta seca e a tinta molhada não se acertam.

Um conto é um meteorito. É preciso que viaje longamente pelo espaço do imaginário, para incendiar-se, subitamente, ao entrar em contato com a nossa atmosfera.

E esta sensação é impagável: fazer um bom conto, e que agrade, em primeiro lugar, ao exigente leitor que temos dentro de nós. Não venderá nada, não será lido por ninguém, mas não importa.

Toda beleza é inútil. E é bom que seja. É a nossa última trincheira, nesse mundo em que tudo vira mercadoria.

11 comentários:

  1. Escrever como a senhora viúva e sem filhos que borda para si com a dificuldade que chama de reumatismo.

    E ao contrário do que pensariam os céticos num primeiro e talvez até mesmo em um segundo olhar, escrever como essa senhora que borda para acalentar-se, ou como ela mesmo diz, para enxer de Deus o seu peito.

    Jamais bordar para matar tempo, como havias observado uma beata sua amiga, logo corrogida por ela, lembrando seu pai boêmio: "Escute Euvira, Tempo é coisa que não se mata nem vence. Papai ja´dizia, tempo não é bicho que sangra nem grita. Tempo não sente medo, só passa, flui que nem barco na correnteza, e pelos desvãos das veias que um dia entopem, o tempo junto do barqueiro desajeitado puxa adaga e enfia-lhe o golpe. Veja lá, lá se foi outro vivente, agora só resta retirar o chapéu da cabeça com respeito e declamar um samba."

    - Que coisa mais lindo isso, teu pai era poeta?

    SLRF

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  2. Kiefer,

    Agora fiquei curioso! Cadê o conto?

    Mas a respeito disso, das longas elaborações a que um conto está sujeito, o tema fez-me lembrar de Murilo Rubião, que, dizem, elaborou alguns de seus (poucos) contos por anos a fio, escrevendo e reescrevendo à exaustão, ano após ano. O resultado é a obra que temos disponível hoje, após sua morte: pequena, porém poderosa.

    Abço

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  3. Por favor Charles, poste o conto, quando possível.
    Um abraço apertado,
    Alessandra Iob

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  4. Gostaria também de avistar essa rara vermelha arara.

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  5. As metáforas do meteorito e da tinta na parede são absolutamente perfeitas.
    Quanto à inutilidade da arte, penso que o escritor se preocupa com as vendas, mas o artista que há dentro dele, não. O verdadeiro artista (como tu) sabe que toda arte é inútil, e que nisso consiste, paradoxalmente, sua utilidade para o mundo.
    Beleza de texto, cara.

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  6. Charles, vai ver que é por isso que eu demoro tanto tanto tanto pra escrever os contos, apesar de tê-los sempre prontos na cabeça, é porque eu nunca mais encontrei tempo livre suficiente para sentar e começar a escrever lá pelo começo e só me levantar de novo ao atingir a última palavra antes do ponto final da história.

    Saudades das aulas.
    Bjs
    Cris

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  7. É, Cris, é por isso mesmo. Escritor sem ócio vira beócio, como eu.

    Abraço,

    CK

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  8. que lindo!! charles tu és um gênio!!! o melhor dentre os melhores...ja encomendei o em breve tu repousarás também, é o único que falta para completar tua maavilhosa obra. bjsss

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  9. belissimo
    "Toda beleza é inútil. E é bom que seja. É a nossa última trincheira, nesse mundo em que tudo vira mercadoria".

    compartinho uma idéia parecida que postei em meu blog mês passado.

    http://transanias.blogspot.com/2010/05/deuses-do-mercado.html

    cordial abraço

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  10. Venho percebendo o contrário a isso, ao logo de minhas observações e análise em alguns contos que leio. Até meus, que não me aventuro disponibilizar para alguém ler. Com esta definição que apresentas neste texto, sintetizou o que procuro em contos, sejam os que leio ou os tais que escrevo: "incendiar-se, subitamente".

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  11. A arte não é inútil!
    Ela desperta emoções,sentimentos, podendo refletir também a realidade sócio-econômico de uma época e através de suas manifestações ser uma alavanca para novas visões e conceitos.

    Kiefer, fiquei curiosa para ler o conto da Arara vermelha !
    abraço,
    Letícia

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