quarta-feira, 26 de maio de 2010

O poncho (conto)

Na tarde em que regressava a Pau d’Arco, sob os guascaços de uma chuva lateral e violenta, chuva que principiara no dia anterior e que continuaria por mais uma semana, Fernando Kõnning, meu avô, usava ainda o poncho que recebera de presente de Angélica, a mulher que tinha amado com urgência, antes de partir, e quase em desespero depois, que é como se pode amar um espectro. Nem a doçura, a suavidade, o carinho e o amor de Lídia, minha avó, o protegeram das emanações fantasmáticas do passado, dos pesadelos reiterados, da dor sem fim das coisas que não chegam à plenitude, frutas arrancadas à arvore da vida antes do amadurecimento. Calha, a algumas mulheres, o destino de recolher homens destroçados, cuidar de suas feridas, alimentá-los e protegê-los até que readquiram as forças, até que voltem a acreditar na própria capacidade de conquista e sedução. Quase sempre, essas benfeitoras, as mulheres ternas e compassivas, as enfermeiras da alma, recebem em paga o abandono e o desprezo. Fernando, ou porque estivesse cansado, entrava já na meia-idade quando se casou com Lídia, ou porque tivesse desenvolvido por ela algo mais que ternura, aquietou-se, recolheu-se à vida caseira, à felicidade miúda e cotidiana. Passava os dias no alambique, que herdara do pai, a produzir a melhor aguardente da região. Nunca se livrou da culpa, nem da saudade. Nos sábados quentes e chuvosos, quando o cheiro de terra molhada se espalhava pelo ar e a cicatriz na alma pulsava, ele sentava-me aos seus pés, na varanda, e me contava a sua história.

“Na tarde em que regressei, depois de cinco anos e três meses de ausência”, ele principiava a narrativa, concentrado, lento, ausente, como se mastigando as palavras, “compreendi que a saudade, ao contrário do que deveria ser, aumenta mesmo é na direta proporção da proximidade do ser amado.”

Distante da noiva, o amor de meu avô diluiu-se, esgarçou-se, perdeu-se nas sombras dos becos escusos e das ruelas mal-iluminadas de Uruguaiana, Montevidéu e Buenos Aires, e entre as muitas mulheres com quem dividiu catres e lençóis manchados, mas nenhuma esperança. A centenas de léguas, a mulher de olhos negros, de rosto magro e saliente, rosto emoldurado por cabelos longos e lisos, a mulher de fronte alta e orgulhosa transformara-se apenas num ritmo cadenciado, mais som que sentido, a persistir na memória com a renitência das chuvas de abril. No entanto, ao se aproximar do povoado natal, o rosto esquecido retornava tão vivamente à consciência que parecia vê-la sorrindo no horizonte leitoso; no resfolegar do cavalo como que ouvia a respiração sincopada da noiva, seus soluços secos diante do portãozinho na tarde da partida, e no taconeo dos cascos reconhecia a voz da amada: meu menino, eu te espero.

“A hora era a do crepúsculo, e imaginei divisar ao longe o casario dos arrabaldes de Pau-d’Arco. Senti um aperto na garganta, porque sabia que, no meio daquelas luzes desmaiadas, em duas delas, minha mãe e minha noiva me esperavam. O tordilho avançava lentamente, com a cabeça inclinada para baixo e para a esquerda, protegendo-se do vento e da chuva. A distância até a casa encolhia e o tempo, parecia-me, comprimia-se também, e já não eram seis anos, ou quase seis anos, pequinita, o tempo que eu estivera afastado de Angélica, mas três semanas, ou menos. Longe, eu estivera muito longe, porque longe é viajar sozinho. Agora, sentia-a ali, próxima, diante dos meus olhos, a fitar-me com dor e desolação no portãozinho de madeira, recusando-se a compreender que eu precisava partir para a revolução, cumprir meu destino ao lado dos outros dezessete homens que também partiriam, comandados por José Tarquino Rosas”.

Ele inclinava a cadeira de balanço para trás, até o limite, e respirava com a dificuldade dos velhos asmáticos e fumantes. Talvez quisesse perguntar-lhe por que os homens colocam tudo acima do amor, mas eu era uma guria tímida e assustada, incapaz de falar diante de um adulto, mais ainda dele, que não gostava de ser interrompido. Depois, quando cresci, a pergunta perdeu sentido, distanciei-me dos costumes de outras mulheres, como minha mãe e minha avó, deixei Pau-d’Arco com a promessa de não retornar nunca mais àquela terra maldita. Mas ele, ele que tinha partido, que conseguira desprender-se dos pegajosos cheiros da infância, dos ruídos familiares, da modorra das tardes de verão, dos liames invisíveis que tecem pais, irmãos, primos, amigos, ele retornava, atraído pelos dedos longos e delicados que haviam tecido o poncho que o envolvia, dedos que desejava em seu rosto hirsuto, enquanto sentia no nariz, na testa, no queixo, a violência da chuva, chuva que tornava o pano cardado pesado, mais grosso e mais áspero. Era um homem bom, justo e generoso, era assim que

se sentia, é assim que se sentem os homens que amam, e que desejam a mulher inalcançada, mesmo se cruéis, traidores e mesquinhos. Era um homem simples, de hábitos regulares, sem fanatismos, exceto a política, que regressava ao lar, um homem que se sentia protegido pelas forças do bem, sobrevivera a prisões, emboscadas e vendetas da revolução, não sobrevivera?

O cavalo resfolegava, desviava-se dos valetões produzidos pelas carroças carregadas de pesados dormentes. Fernando concentrava-se no caminho. Ou, tantos anos depois, imaginava ter se concentrado. Súbito, e ele o mostrava com um gesto repentino de mão, que me assustava, sentiu um deslocamento quase imperceptível a sua frente, como que a projeção de uma sombra no estradão escuro e encharcado, e um puxão nas franjas do poncho, seguido de um suave dedilhar de acordeona.

É o vento, ele pensou, e era, sim, o vento, era só o vento que soprava com fúria, que arcava os galhos das árvores, que zumbia nos ouvidos e o forçava a viajar com os olhos espremidos, estreitados quase a ponto de nada ver.

Tudo vem em ciclos, correntes alternadas, pulsão e repulsão, onda e repuxo, e o vento também. Depois de mostrar força, o vento arrefeceu e, por entre a espessa cortina de chuva, meu avô divisou, com espanto, mas não sem alegria, o salão de bailes da Esquina Grubert e percebeu que se equivocara, na verdade tinha tangenciado o povoado de Pau-d’Arco, tomara o estradão que conduzia à cidade de San Martin, hoje desaparecida sob as águas da barragem.

“Era como se o cavalo tivesse girado quarenta e cinco graus”, ele afirmava, quase cinqüenta anos depois, girando também a cabeça para o indicar.

“Um homem cansado, um homem faminto, um homem ansioso pode tomar as coisas pelo que não são, a aparência pela realidade, especialmente num entardecer chuvoso, não pode?”, indagava, a buscar na inocência da menina sentada aos seus pés um ponto de apoio contra o absurdo e a loucura, contra a fenda que se produzira no pano do Universo.

No mesmo instante, ainda antes de sofrenar o cavalo e retomar o caminho que o levaria, finalmente, para casa, recordou-se de que fora ali, naquele mesmo lugar, que vira Angélica pela primeira vez havia mais de sete anos.

Ela estava sentada entre duas amigas, e ria, ria com gosto, mostrava a dentadura branquíssima, jogava a cabeça para trás, sacudia os ombros, feliz, iluminada, um pintassilgo alvoroçado. Fernando não era alto, nem seus ombros largos, mas seus olhos tinham gume de faca assassina. Angélica sentiu dor no plexo solar e uma dormência nas pernas. Demorou a reagir ao braço oferecido. Depois dançou leve, flutuou pelo salão. E amou com a intensidade das pombas, das codornizes, das garças-pequenas. Fernando deteve-se, indeciso, um momento, apurou o ouvido e, apesar do vento, apesar do repique da chuva nas abas do chapéu, reconheceu, nos floreios da acordeona, que outra vez se fez ouvir, os compassos da milonga que o levara a encorajar-se e a convidar Angélica para dançar.

Estava exausto, cavalgara o dia inteiro, queria apenas um banho quente, um café com cardamomo, afagos de mãe e abraços de pai, queria chegar logo a Pau-d’Arco e rever a noiva, acertar com os sogros os detalhes do casamento, a lista dos convidados, o lugar em que fariam a festa, mas a música triste e arrastada continuava a colear na noite, a arrastar-se sob a chuva torrencial, a perder-se na mataria fechada e a doer no peito de meu avô como uma chaga.

O amor precisa de suportes para ser revivido, o amor precisa agarrar-se às coisas, aos objetos, à luz oblíqua da lua, às rosas murchas, às páginas amarelecidas das cartas e dos diários, ao nitrato de prata das fotografias para sobreviver à voracidade do tempo e do esquecimento. Como que por instinto, ou por cacoete adquirido nos anos de andanças pelo continente, meu avô alisou o poncho e sentiu nele, no forro de baeta e em si mesmo, o amor vivo, quente, o amor expectante.

“Guardei o poncho, pequenita, a vida inteira. Será teu, quando eu me for. Pra te proteger da solidão e das doenças”, ele murmurava, enchendo-me de esperanças de um dia possuir o objeto mágico e salvar-me com isso do ciúme dos deuses, porque eu ainda não tinha compreendido que fora o poncho, exatamente o poncho, que o submetera à solidão irredimível e à doença mais perniciosa e letal, a de viver com os olhos voltados para o passado.

Fernando puxou as rédeas, roseteou o tordilho nas ilhargas, mas o cavalo como que resistiu, deu dois arrancos para a frente e estacou diante da porta iluminada do salão de bailes. Vencido, meu avô decidiu desmontar. Ao retirar o pé do estribo, já no chão, sentiu algo roçar no poncho outra vez e supôs que fosse um ramo de espinilho, ou a própria roseta da espora. Amarrou o tordilho no palanque e, antes de entrar, ao virar o rosto para trás, deu-se conta de mais um engano. Já era noite fechada, o entardecer fora ilusão dos desmaios de luz da lua escondida por detrás de nuvens pesadas contra o vapor da chuva sobre a terra quente.

O salão fervilhava, os casais rodopiavam na pista, a copa estava atulhada, ele precisou meter-se ali, meio à força, usando os braços para abrir caminho, queria entregar o revólver e a faca, que era do costume da época desarmar-se, abandonar as armas maiores e mais visíveis.

“Sempre se escondia um ferro curto no cano da bota, que ninguém era tolo pra morrer de descuido”, ele dizia, armando em mim a falsa expectativa de uma luta de punhais, que não viria.

“Deixei as armas, o chapéu e o poncho na copa e aproximei-me da pista de danças. Tinha as roupas molhadas, mas não sentia frio, não ainda, e, além disso, a aguardente pura, de alambique, ajudava a esquentar o corpo”, ele continuava.

“No primeiro trago, reconheci a cachaça produzida pelo meu pai. Mais que a boca, a ardência queimou o espírito”, dizia, fitando-me com seus olhos ternos, compassivos e desesperadamente azuis. Para não fraquejar, ou porque fraquejava, meu avô batia as pálpebras, coçava a cabeça, ajeitava-se na cadeira de balanço.

“Passei e repassei os olhos pelos grupos de mulheres, atravessei o salão muitas vezes. Eu não pensava em dançar, doíam-me as costas, os braços, as pernas. Sequer sabia por que tinha entrado, deixara-me arrastar pelo cavalo, pela luz trêmula que fugia da porta principal, pela magia da milonga e, por que não dizer, pela saliva abundante que a simples lembrança da aguardente me provocava. O arruído, o movimento e a cachaça foram me prendendo e eu fui ficando. Aquilo, e o que viria depois, tinham hora para acontecer? Se eu tivesse partido antes, ou se não tivesse entrado no Salão Grubert, a coisa teria acontecido? Duas, talvez três horas mais tarde, no instante mesmo em que decidi retornar à estrada, arregalei os olhos de susto”, ele continuava e abria bem os olhos azuis e profundos que eu tanto amava, “arregalei os olhos de susto e não consegui acreditar no que vi. Sentada no meio de um grupo ruidoso de moças, com o cabelo em coque, um vestido florido que me era vagamente familiar, vestido que reconheci somente depois, Angélica sorria, ou quase”.

Com a sensação de que não vivia aquele instante, mas outro, afastado no tempo, Fernando aproximou-se da mulher que amava, a mulher que tinha deixado em Pau-d’Arco havia quase seis anos. Tímida, extremamente tímida, e silenciosa como um riacho no pampa, ela não ousou levantar os olhos para o noivo, mas aquiesceu em dançar. Ele não estranhou, porque era assim, tinha sido sempre assim, e assim fora desde o primeiro encontro. A intimidade seria construída depois, depois das bênçãos, depois dos fogos, depois dos festejos de casamento. Angélica ouviu calada a narração dos feitos revolucionários, a violência dos combates e das degolas, o frio do minuano nos acampamentos, a fome, a febre dos soldados feridos, o delírio e a saudade. Não indagou as razões do noivo, que não regressou com a coluna de José Tarquino Rosas, o Intendente de San Martin, ao final dos combates.

“O cheiro”, diria meu avô, “o cheiro não era o mesmo, minha noiva tinha cheiro de madressilva, mas naquela noite ressumava à lavanda”.

Entre os muitos equívocos de um homem cansado, somava-se mais este. O que, de fato, Fernando sentiu, foi o cheiro de mofo do vestido que estivera guardado em sua longa ausência, dobrado na cômoda, esquecido entre as anáguas e os corpetes. Sim, o vestido tinha estado enclausurado, longe da luz, como a própria noiva, que permanecera em casa nos dias de abandono. Ela resistira ao coro das amigas e dos parentes, que afirmavam, com absoluta certeza, que o noivo não regressaria, que estava casado em Alegrete ou Santiago do Boqueirão. Angélica mantivera-se fiel até nisso, no direito que tinha de se divertir, de tornar
mais leves os dias pesados. O cansaço, com certeza tinha sido o cansaço, ou a emoção de tê-la outra vez contra o peito, impediu Fernando de fazer a pergunta óbvia: Como é que ela sabia que o encontraria ali, no Salão Grubert? Ou então: Por que esperara tanto para regressar ao mundo das festas e dos bailes, ela que era tão jovem e tão linda, e por que só o fazia naquela noite, noite em que ele retornava?

Dançaram, ou ele dançou com ela, já que Angélica se deixou levar.

“Contei-lhe tudo e foi como se não tivesse me ouvido, sequer uma queixa diante das traições, um murmúrio sequer de espanto frente às mortes e aos perigos. Suas mãos frias, às vezes, se crispavam e eu podia sentir as suas unhas nas minhas costas”, ele prosseguia para, em seguida, mergulhar num silêncio aterrador.

“Não me perdôo por não ter percebido”, ele tornava a falar, muito tempo depois, contendo os soluços. Se delongava, meu avô, na descrição dos volteios, das marchas e contramarchas, dos passos que ambos executaram naquela noite que ficaria para sempre impressa na sua memória, e na minha.

Angélica tinha a boca pequena, os dentes um pouco projetados para a frente, um sorriso esquivo, a tez leitosa e pintalgada de sardas, os braços longos e finos, magra, muito magra, e mais alta que Fernando. Dançaram, os dois, polcas, valsas, chimarritas, bugios, xotes, milongas e chamamés, até que os músicos guardaram os instrumentos.

“Súbito, senti um frio no estômago, minha vista se escureceu. Percebi, então, que Angélica estava sozinha no baile, sem os seus pais, que sempre a acompanhavam. Teria se transformado numa dessas mulheres de vida fácil, que percorrem os salões atrás de forasteiros que não as conheçam?”

O convívio com prostitutas, que seguem as tropas, ou com as que os soldados buscam nos arrabaldes das cidades, levou meu avô a julgar mal a mulher que o amava. Fechou-se num mutismo infantil e despropositado, e perdeu, assim, a oportunidade de aproximar-se, pela última vez, da noiva.

Apanhou suas coisas na copa, as armas, o chapéu e o poncho, e arrastou-a para fora. Chovia ainda, a mesma chuva lateral do entardecer, mas já sem violência. Para protegê-la, vestiu-a com o poncho.

“Não sei se foi a luz do salão, ou talvez a claridade da madrugada, mas Angélica ficou como que aureolada, a tremer sob o tecido que ela própria havia tramado. Dela partira e a ela retornava. Era como se um ciclo se fechasse e a chuva que despencava fosse a mesma chuva que despencara na tarde da minha partida.”

Fernando enfiou o pé no estribo, montou, deu a mão à noiva, que saltou às suas costas.

“O poncho é teu outra vez”, ele disse, rude, cego, enlouquecido de ciúme, tentando feri-la, como se com isso devolvesse o compromisso, como se o objeto que a protegia da intempérie fosse o símbolo da aliança que se estabelecera entre eles. Meu avô não podia imaginar que Angélica viesse a devolver-lhe o presente, com o mesmo amor e carinho da primeira separação, ainda na tarde desse dia que então se inaugurava.

Entre o Salão Grubert e o povoado de Pau-d’Arco, Fernando remoeu um ódio tolo, construiu um passado falso para Angélica, passado que o redimia de seus erros e arrefecia a sua própria culpa. Se não fora capaz de esperá-lo, ele pensava, era indigna de seu amor. Assim, à tarde, quando visitasse a família da noiva, devolveria a aliança, romperia os laços de honra. Imaginou-se em casa, em seu quarto de solteiro, recolhendo, numa caixa de sapatos, as cartas, as abotoaduras, um prendedor de gravata, um marcador de livro de metal, uma espátula e outras quinquilharias com que os namorados costumam tutear-se. São tolos, os amantes, que imaginam devolver os sentimentos com as coisas devolvidas.

Diante do portão da casa de Angélica, depois que ambos desmontaram, a crise de desconfiança cedeu. Odiou a si mesmo por tê-la julgado infiel. Não foi capaz de suportar a própria comoção e chorou. Terna, ela recolheu suas lágrimas, abraçou-o com força, sempre em silêncio. Era como se ele não tivesse partido, como se continuasse ali, tentando consolá-la, como se a quisesse convencer ainda da importância da revolução. Por um instante, teve a sensação de que nada havia acontecido, a mesma chuva insistia em obscurecer o mundo, o mesmo medo de não tornar a vê-la enrodilhado no estômago, a mesma dor do abandonador. Fernando fechou os olhos por um instante e quando os reabriu percebeu-se sozinho na manhã recém-nascida. A chuva tinha cedido, ouvia os pássaros no arvoredo atrás da casa e cães a ladrar nas cercanias. Súbito, uma sensação de calafrio percorreu seu corpo, como se estivesse sendo observado. Voltou-se para a janela do primeiro andar e viu Angélica de relance, atrás da cortina que se fechava, sem saber que aquela imagem reproduzia outra, uma que não fora capaz de ver, porque não fora capaz de olhar para trás na tarde em que partira.

Como se fragmentasse o tempo da narrativa, meu avô abandonava a cadeira de balanço, dava algumas passadas pela varanda, escorava-se numa das vigas que sustentavam o alpendre. Depois, elidindo o trajeto entre a casa de Angélica e a de seus pais, ignorando a pintura de um café da manhã de filho pródigo e os sonhos de um sono justo em que mergulhara das nove às três horas da tarde, descrevia-se outra vez diante do portãozinho de madeira, sob a mesma chuva, mas com disposição de espírito muito diferente. Tinha sido injusto, precipitara-se em conclusões odiosas, felizmente não verbalizadas. O amor tudo pode suportar, exceto as palavras de fogo, aquelas que sabemos ferinas, maldosas, que atingem o outro no que ele tem de mais recôndito e sagrado. Estava banhado, vestira o terno guardado com zelo pela mãe, fizera a barba, perfumara-se.

“Toquei a aldrava várias vezes, até ser atendido pelo velho Armando. Um fantasma, se eu fosse um fantasma, teria causado menos impacto”, dizia meu avô e alisa va a face, como que a certificar-se da própria corporeidade.

A cena se repetiu diante de Luísa, a mãe de Angélica, cuja perplexidade transformou-se em demorado pranto. Era justo que se assustassem, era justo que resistissem à sua volta. Tinha decidido não explicar nada, fazer de conta que o tempo da ausência não fora tão dilatado assim. Agora, ali, ele próprio se perguntava: Por que não regressara antes? Depois da assinatura da paz em Pedras Altas, envolvera-se em negociatas, contrabandos, jogatinas. E se afastara cada vez mais de Pau-d’Arco. Os pais da noiva, recuperados, menos nervosos, convidaram-no, enfim, a passar à sala.

“Sentei-me no sofá e suspirei aliviado. Agora sim, agora eu podia dizer que estava em casa”, dizia Fernando, a cofiar o bigode branco e bem-aparado. Por mais que se esforçasse, não conseguia reter as lágrimas, que desciam pelas rugas de seu rosto, rugas que eu tomava por cicatrizes da revolução.

“Não se ouvia a chuva, que persistia, mas pelas persianas entreabertas podia-se ver a tarde nebulosa”.

Na sala, com seu balançar implacável, o pêndulo do relógio contabilizava as perdas e os ganhos, as palavras e os silêncios, os desejos e as indiferenças dos homens, das mulheres, dos bichos e das coisas. No princípio, a conversação remanchava, como que reboujava ao redor de ninharias, comentários a respeito da estação chuvosa, a certeza de quebra na safra de grãos, os planos de Armando de comprar um automóvel.

“Aquilo dava nos nervos, parecia proposital. A mãe de Angélica sequer me encarava e o pai me confundia com um vizinho, um amigo, um parente distante”.

Algum tempo depois, Luísa levantou-se, dirigiu-se à cozinha. Meu avô, sentado no canto esquerdo do sofá, esperava, impaciente, a descida da noiva. Apurava o ouvido, tentava perceber os ruídos costumeiros no segundo andar, os passos leves no assoalho, o ranger de portas, os estalidos secos no madeirame dos degraus, e nada.

Luisa retornou com café e bolachas de polvilho, que depositou sobre a mesa de centro.

“Pensei que Angélica não estivesse em casa, que saíra para visitar alguma amiga, por isso esperei ainda meia hora, talvez mais”.

Tempo que se dividiu, para meu avô, em intermináveis ponderações de Armando sobre a situação política do Estado, as movimentações de Getúlio Vargas, a crise da bolsa, a situação do banco pelotense, questões que, naquela tarde, perdiam o sentido para o homem apaixonado que desejava, apenas, rever a noiva e entregar-se, enfim, ao único assunto que justifica a existência.

“Bem”, ele disse, fazendo estalar a mão espalmada na coxa, “estou aqui para arreglar as coisas para o casamento”.

E, então, um grito, o que se ouviu foi um grito, de dor, de desespero, de ódio represado, e uma grande movimentação na sala. Sem que atinasse com o que estava acontecendo, Fernando viu Luisa subir os degraus da escada quase correndo, seguida de perto pelo marido. Meu avô quedou-se no primeiro andar a ouvir, badalada por badalada – pois contou uma a uma –, o relógio marcar cinco horas da tarde.

“Nunca mais vi Luísa, que me odiou até a hora da morte. Não a condeno por isso, eu teria feito a mesma coisa”.

Quando Armando desceu, meu avô soube a verdade:

“Todos os dias, ao entardecer, por mais de dois anos, minha filha ficava diante do portãozinho, a mirar a estrada que tinha te levado. Ela esperou, com a paciência e a dedicação que só as mulheres sabem ter, enquanto suas pernas conseguiram sustentar o corpo fraco. Depois, quando a tísica avançou e não conseguia ficar longe da cama por muito tempo, contentava-se em fitar a lonjura pela janela, a murmurar, já sem juízo e em agonia, o teu nome”.

Chovia, chovia sem parar, uma chuva imemorial, definitiva, como se os céus quisessem lavar a terra de todo o mal. Primeiro, Fernando se desconsolou, ganiu de desespero, não acreditou que fosse verdade, quis subir a escada para ver Angélica, e depois convenceu o pai da noiva a levá-lo até o cemitério, queria ver com os próprios olhos a terra que a tinha recebido.

“Fomos a pé, no meio do temporal que desabava sobre o vilarejo”.

Hoje, mais de sessenta anos depois, imagino os dois homens, inclinados sob a chuva e o vento, percorrendo as alamedas do cemitério. À imagem agrega-se a lembrança de mim mesma, pasma, lívida, sem fôlego, sentada diante do velho, a ouvi-lo ajustar contas com o passado. Sinto, consigo sentir, o cheiro de terra molhada, e ouço, consigo ouvir, o ribombar dos trovões. Daqui onde estou, nesse quarto repleto de livros e dos meus próprios amores e fantasmas, posso ver o poncho, que herdei, dependurado atrás da porta. Impressiona-me que, apesar dos anos, das revoluções, das tempestades e das insolações, seu pano ainda resista. Sempre que o minuano açoita esta cidade que escolhi por casulo e tumba, visto-o e estremeço, que me comovem a ternura e a grandeza com que foi trançado. Sinto em sua trama os dedos longos e finos de Angélica, e, na sua aspereza, os sobressaltos de uma longa espera.

O que de amor foi tecido, de amor permanece.

Sobre a tumba, encharcado, mas delicadamente estendido, meu avô reencontrou o presente que recebera da noiva na véspera da partida.

(In: KIEFER, Charles. O pêndulo do relógio & outras histórias de Pau-d´Arco. São Paulo: Manole, 2009).

terça-feira, 25 de maio de 2010

À espera do grande engarrafamento

Hoje, ao abrir a caixa postal do Refúgio, escritório em que me escondo para escrever, encontrei quatro faturas atrasadas de conta de luz. O que significa que há mais de quatro meses não escrevo nada.

Crise. Uma profunda "crise escritural". Já recolhi meu romance da editora, não quero mais publicá-lo, já decidi "dar um tempo" a mim mesmo, para examinar em que encruzilhada tomei a via errada. "Dar um tempo", na linguagem eufemística dos amantes é "sair de fininho", "deixar que as coisas se auto-destruam".

Ou será uma grande desilusão com a própria literatura, o que me aflige?

O argumento da falta de tempo é pífio, auto-enganador. Escrevi meus melhores romances e contos em épocas em que trabalhava dezesseis horas por dia. Escrevia aos domingos, de madrugada. em estações rodoviárias, dentro de ônibus e aviões, à mão, sem as facilidade eletrônicas que tenho hoje.

Não. Falta de tempo não é desculpa. É falta de fé. Em mim, na função da literatura, na humanidade.

Antes, como dizia o Sergio Faraco, eu escrevia com a sensação de que ia salvar alguém. Hoje, vejo que não há mais ninguém a ser salvo. Estão todos confortáveis, domesticados e bovinamente felizes. O petróleo jorra do fundo do mar, devastando a vida marinha, e ninguém se espanta, ninguém clama. Há trinta anos, havia gente que se acorrentava às árvores, para que não fossem derrubadas. Onde eles estão? Onde estamos? O que houve conosco? Fomos abduzidos? Ou a caverna platônica se expandiu tanto que tomou conta do planeta?

A solução talvez esteja num imenso engarrafamento, um engarrafamento de proporções apocalípticas, como aquele do conto de Julio Cortázar. Parados na Ipiranga, Sertório, Independência e Farrapos, talvez tenhamos tempo de refletir. Talvez uma saudável epifania nos acolha no meio do congestionamento.

Decisão tomada. Vou andar com o laptop no carro. Quando a cidade parar, sintonizarei a Rádio Universidade, e, entre um e outro acorde de Brahms ou Mozart, talvez eu volte a fingir que sou escritor.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Entrevista com Fernando Portela

Dei uma longa entrevista para Fernando Portela, sobre oficinas literárias. A Revista da Cultura já está circulando, com a matéria final. Como o jornalista aproveitou três ou quatro parágrafos das 23 páginas de nosso diálogo, reproduzo-o em sua totalidade aqui. Já fui editor de jornal e conheço bem a guerra por espaços. Felizmente, a internet nos permite driblar a imposição do corte. Assim, nem o meu trabalho nem o do Fernando ficam aviltados e os nossos leitores podem conferir a totalidade da conversa.


Entrevista com Fernando Portela


Revista da Cultura


São Paulo


14 de fevereiro de 2010

Fernando: A informação que recebi diz que você tem sua oficina e também faz oficinas na PUC. Para não cometer nenhum erro, gostaria que isso fosse esclarecido, OK?

Kiefer: Tenho 7 grupos de oficina na Livraria Palavraria, em Porto Alegre. Cada grupo tem 15 alunos. Sou, também, professor de Escrita Criativa, Produção de Textos Poéticos e Oficina de Criação Literária, na PUC do Rio Grande do Sul. São mais 5 grupos, pois tenho 3 turmas de Escrita Criativa. Cada grupo tem entre 30 e 40 alunos. Além disso, tenho uma empresa, a Oficina Literária Charles Kiefer e Editora Ltda, onde tenho mais alguns grupos, e onde trabalham comigo, dando cursos e oficinas os escritores Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo, Armindo Trevisan, Donaldo Schuller, Regina Zilberman, Luciano Alabarse, Sergius Gonzaga etc. São mais de 400 alunos.

F: Gostaria também que me comentasse (não é uma pergunta) o fato de tanta gente, no Brasil inteiro, procurar oficinas literárias, cursos de escrita ou o nome que se queira dar a quem gostaria de escrever melhor. Ora, não somos um País inimigo dos livros?

K: Não, não somos inimigos dos livros. Talvez o centro (SP-Rio) ignore o que se faz na periferia. Em Passo Fundo, a Jornada Nacional de Literatura, dirigida por Tania Rösling, reúne mais de 25 mil professores de literatura, a cada dois anos. Nós, escritores gaúchos, temos o nosso mercado aqui mesmo, no Sul. Sem querer ir muito longe, já vendi mais de 350 mil livros. Trezentos mil com a Editora Mercado Aberto (do RS). E 38.827 com a Editora Record (Rio), até a última prestação de contas. Sem contar aí com os livros que vendi pela WS Editor, Editora Artes & Ofícios (mais de 7.500), Ática, Manole, Nova Alexandria, FTD, Círculo do Livro (antigo) etc. Mais o que foi vendido na França, em Portugal.

F: Não detestamos ler?

K: Não, não detestamos. O que se lê de Bíblia, livros espíritas, livros independentes nunca é contabilizado. As estatísticas é que são caolhas.

F: A Argentina nos é passada na cara todo o tempo: lá eles lêem, consomem não sei quantos livros por ano, etc.

K: A Argentina consome, per capita, 5 a 6 livros. O RS consome 5,6 (cinco vírgula seis) livros per capita. A França consome 7. Não vejo em que sentido consumimos poucos livros. E se incluíssem aí os livros não contabilizados, a média subiria muito.

F: Se a gente não gosta, por que tanto curso, oficina, encontros com essa finalidade?

K: Creio que as respostas anteriores resolvem esse dilema.

F: Há quanto tempo você ensina o pessoal a escrever?

K: Há mais de 20 anos.

F: Como entrou nisso?

K: Em 1986, fui o escritor brasileiro no International Writing Program, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Lá, vi que as oficinas literárias, em países desenvolvidos, eram comuns. Ao retornar ao Brasil, abri a minha primeira oficina, na Casa de Cultura Mario Quintana. Tive 3 alunos, na primeira turma. Nunca mais parei. Hoje, tenho centenas de alunos, vários milhares já passaram pelas minhas oficinas, e tenho uma lista de espera com mais de 1.400 pessoas.

K: Em geral, todo escritor, jornalista, publicitário tem, lá na adolescência, um guru, em geral um professor de português. "Escreva que você tem jeito pra isso". As pessoas que você recebe já vêm com interesse despertado?

K: De certa forma, sim. Aceito somente alunos adultos, de preferência cursando ou com curso superior completo. Meus alunos e alunas são médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, psiquiatras, psicólogos, psicanalistas etc. O que menos tenho são professores de literatura, mas aí o problema é custo. Em geral, professores ganham tão pouco que não consegue pagar oficina.

F: Ou querem escrever melhor por algum outro motivo?

K: Os motivos são os mais variados. Necessidade de expressão, vaidade, dinheiro. Há um certo fetiche em escrever. Aquele dístico de Confúcio ou Lao Tsé, de que para ser um ser humano completo é preciso plantar uma árvore, criar um filho e escrever um livro, é muito emulador.

F:Jovens blogueiros?

K: Nos últimos anos, começaram a surgir os internautas também. Eu mesmo tenho blogs (http://charleskiefer.blogspot.com e http://gosteimuito.blogspot.com além de outros) e incentivo meus alunos a que os tenham também. É uma boa ferramenta de teste, de exercício e de formação de público-leitor.

F: Madame com tempo de sobra?

K: É o que menos aparece. Madame com tempo de sobra vai pro Shopping.

F: Terceira idade em busca de saúde mental?

K: Depende muito do horário em que a oficina é oferecida. Por exemplo, as turmas de sábado (já tive três, agora reduzi para duas, por cansaço), os participantes são todos em idade produtiva, profissionalmente. Fazem aos sábados por falta de tempo durante a semana.

F: Quem são os alunos no sul?

K: Já respondido anteriormente.

F: Pelo jeito, os alunos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília são bem diferentes entre si. Será que o pessoal do Sul gosta mais de escrever? Dizem que os nordestinos são mais chegados... Acho que não há números sobre isso.

K: Creio que são mitos. Se fizerem uma estatística séria, verão que não há diferença. O que se sabe, estatisticamente, é que o Sul lê mais (do Rio de Janeiro para baixo). Mas aí entra poder aquisitivo, qualidade de educação, formação mais européia, políticas públicas mais eficientes etc). Pesquisa de mercado sem contexto sócio-histórico vira empulhação.

F: Quanto tempo dura uma oficina?

K: Nesse sentido, minhas oficinas são bem diferentes do que existe por aí. As minhas oficinas têm início, mas não têm fim. No grupo de sábado de manhã, por exemplo, alguns alunos estão comigo há 16 anos. Outros há 10, 8 anos.

F: Quantas pessoas numa sala?

K: 15 participantes (na Palavraria). 12 participantes (na minha empresa). 30 ou 40 participantes, na PUC.

F: É possível dar uma ideia do que acontece no começo, meio e fim do curso?

K: Assim como a Natura e a Coca-cola não revelam o segredo de suas fórmulas, eu também não. Prefiro que se observem os resultados (livros publicados por meus alunos e concursos vencidos por meus alunos). O que posso dizer é que cada grupo tem bibliografia e produção diferentes, pois respeito a individualidade de cada um deles. Dá um trabalho extraordinário, mas é isso que faz a diferença.

F: Quais são os livros – ou estilos – sugeridos durante o processo?

K: Respondido anteriormente.

F: Hoje o pessoal lê no computador. Chega em qualquer curso meio sem bagagem. Da minha experiência pessoal de palestras em escolas, não só de periferia, mas de bairros nobres aqui de São Paulo, me impressiona o número de pessoas que querem escrever. Mas aí a gente pergunta o que gosta de ler, ou o que leu, e toma um susto: ninguém lê nada. Tem alguma porcentagem dos seus alunos que chega assim, imagino que os mais jovens?

K: Não, nenhum de meus alunos tem esse perfil. Para ser meu aluno, precisa ter perfil de leitor. Na PUC, por ser um curso aberto, sim. Há alunos que não lêem nada. Aí, a minha tarefa é conquistá-los para a leitura. Às vezes, consigo.

F: Na sequência da pergunta: tem mais blogueiro ou escritor de papel?

K: Nesse momento, os blogueiros ainda são minoria. Mas a tendência é inverter, em dez anos, no máximo.

F: O que é que vocês dizem aos alunos: o papel vai acabar ou não?

K: O livro-papel? Tão cedo não, mas em algumas décadas sim. Quando me fazem essa pergunta, devolvo com uma pergunta (também fui jornalista, tenho uma filha jornalista e minha mulher é jornalista): “Quantos rolos de papiro tu tens em casa?”

F: Quem você conhece que após a experiência de oficina, escreveu um livro e o publicou? Quantos ex-alunos? Tem alguém famoso que contou, na sua formação, com oficinas desse tipo? E que assuma, sem frescura? Se for o caso, me dá os endereços?

K: Atenção, listo aí os meus alunos publicados nos últimos 5 anos, e incluo uma lista com os alunos premiados nesses últimos anos:

Publicações de alunos das oficinas de CK

(Desde 2004)

Livros individuais


ALLGAYER, Eni. A gruta assombrada. Porto Alegre: WS, 2009.

—. Mistério na selva amazônica. Porto Alegre: WS, 2009.

ANTUNES, Luciano Médici. Arqueologia reversa e outras histórias. Porto

Alegre: Nova Prova, 2006.

BOECHAT, Lúcio. Shakespeare & Cia. Porto Alegre: WS Editor, 2004.

—. Namoro entre livros. São Paulo: Atica, 2007.

BORDIN, Valmor. Voo rumo às asas. Porto Alegre, Nova Prova, 2009.

BOURSCHEID, Cleonice. Passa, passa, passarinho. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2006.

—. Ave, pássaro. Porto Alegre: Nova Prova, 2007.

—. Comadre Coruja e Compadre Gavião. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2007.

—. Ave, flor. Porto Alegre: Editora Nova Prova, 2009.

CANALES, Beto. A vida que não vivi. Rio de Janeiro, Editora Multifoco, 2009.

COSTA E FONSECA, Ana Carolina. Sei que ele me ama, pois me disse uma vez. Porto Alegre: Bestiário, 2004.

CURTIS, Marco de. O girassol na ventania. Porto Alegre: Editora Dublinense, 2009.

CRUZ, Juarez Guedes. Cronologia dos gestos. Porto Alegre: Movimento, 2004.

—. Alguns procedimentos para ocultar feridas. Porto Alegre: Movimento, 2007.

DIEL, Vitor. Granada. Porto Alegre: Armazém de Livros, 2008.

GRANDO, Diego. Desencantado carrossel. Porto Alegre: Não Editora, 2008.

GODINHO, Alpheu. Eros em decúbito. Porto Alegre, 2007.

GRINBERG, Cassio. Ela em mim. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2005.

GUAZINA, Liziane. Entre facas. Porto Alegre: Editora Nova Prova, 2009.

KLEIN, Ana. Moinhos de sangue. Porto Alegre: Mercado Aberto: 2006.

KOPPITKE, Guido. Companhia das tias. Porto Alegre: WS Editor, 2004.

MAGNABOSCO, Marile. À sombra dos pinhais. Porto Alegre: Nova Prova, 2006.

MARIANO, Ana. Olhos de cadela. Porto Alegre: LPM, 2006.

MELLO, Saul. Vestígios dela e outras histórias. Porto Alegre: Evangraf, 2008.

MESSIAS, Rudiran. Tabus, perversões & outras catarses. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.

MORAES, Bernardo. Minimundo. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2006.

PETRY, Lívia. Flores da cor da terra. Porto Alegre: Editora Nova Prova, 2009.

PUJOL Filho, Reginaldo. Azar do personagem. Porto Alegre: Não Editora, 2007.

REVILLION, Monique. Teresa, que esperava as uvas. São Paulo: Geração Editorial, 2006.

ROBERTO, Enio. Mar quente. Porto Alegre, Editora Dublinense, 2009.

ROSP, Rodrigo. A virgem que não conhecia Picasso. Porto Alegre: Não Editora, 2007.

—. Fora de lugar. Porto Alegre: Editora Não Editora, 2009.

SAFI, Nelson G. Balas de coco e outras histórias amargas. Porto Alegre: Nova Prova, 2004.

TEIXEIRA, Carol. Verdades & Mentiras. Porto Alegre: LPM, 2006.

TEDESCO, Paulo. Quem tem medo do Tio Sam. São Paulo: Scortecci, 2004.

Coletâneas

ALLGAYER, Eny. 104 que contam. Porto Alegre: Nova Prova, 2008.

ASPIS, Abrão et all. 102 que contam. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.

BORDIN, Valmor et all. Inventário das delicadezas. Porto Alegre: Palmarinca, 2007.

COSTA, Alexandre. 103 que contam. Porto Alegre: Nova Prova, 2006.

—. Novos contos imperdíveis. Porto Alegre: Nova Prova, 2007

FURTADO, Ademir et all. 101 que contam. Porto Alegre: Nova Prova, 2004.

—. 30 contos imperdíveis. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2006.

GOMES, Adolfo et all. Brevíssimos! Porto Alegre: Bestiário, 2005.

GODINHO, Alpheu et all. Histórias de quinta. Porto Alegre: Bestiário, 2005.

KLEIN, Ana et all. Porque hoje é sábado. Porto Alegre: Nova Prova, 2006.


Lista de alunos de Charles Kiefer premiados em concursos

2009

Emir Ross

Conto: “Mamãe trabalha à noite”, primeiro lugar no VII Prêmio Escriba de Contos 2009,

Piracicaba, SP, 2009.


Viviane Treméa

Conto: “Num porto qualquer”, terceiro lugar no VII Prêmio Escriba de Contos 2009,

Piracicaba, SP, 2009.



Roberto Canales da Trindade

Conto: “Fígados”, menção honrosa no VII Prêmio Escriba de Contos 2009,

Piracicaba, SP, 2009.



Ricardo Morales Brum

Conto: “Terminal Tietê”, escolhido para publicação na antologia do concurso do VII Prêmio Escriba de Contos 2009, Piracicaba, SP, 2009.



Leonardo Colucci

Conto: “Acerto de contas”, escolhido para publicação na antologia do concurso do VII Prêmio Escriba de Contos 2009, Piracicaba, SP, 2009.

2008

Ana Habkost

Poesia: “Vinho” terceiro lugar no II Concurso Nacional de Poesia, Fenavinho

Bento Gonçalves, RS, 2008



Ana Mariano

Conto: “Sã e salva”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Ângela Ramis

Conto: “Papíes”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Beatriz de Oliveira Abuchaim

Segundo lugar no 4º concurso Literário Mário Quintana – Sintrajufe-

Porto Alegre, 2008



Cíntia Rosângela

Poesia: “Abandono”, primeiro lugar no Prêmio Lila Ripoll

Porto Alegre, RS, 2008



Cíntia Rosângela

Conto: “Sob a luz do fogareiro”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Carol Bensinon

Livro: Pó-de-parede

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura Categoria Conto

Porto Alegre, 2008



Diego Grando

Livro: Desencantado carrossel

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura na Categoria Poesia

Porto Alegre, 2008



Eni Allgayer

Conto: “Inocência”, primeiro lugar 4º concurso Literário Mário Quintana – Sintrajufe- Porto Alegre, 2008



Eni Allgayer

Conto: “Casa de cômodos”, menção honrosa no III Concurso Prado Veppo,

Santa Maria, RS, 2008



Eni Allgayer

Conto: “Sibila”, menção honrosa no XIII Concurso de prosa José Carlos Chiarion, Bragança Paulista, SP, 2008



Eni Allgayer

Conto: “A roseira”, menção honrosa no Concurso Literário UNIVAP – Fundação Vale do Paraíba

São José dos Campos, SP



Guido Martin Kopittke

Conto: “Procedimento padrão”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Juarez Guedes Cruz

Livro: Procedimentos para ocultar feridas

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura na Categoria Contos

Porto Alegre, 2008



Karen Scopel Nunes

Conto: “O consertador de sapatos”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Lívia Petry

Poesia: “Desviagem”, primeiro lugar no Concurso Literário da ULBRA

Porto Alegre, RS, 2008



Lívia Petry

Conto: “Flores da cor da terra”, segundo lugar no Concurso Literário da ULBRA

Porto Alegre, RS, 2008



Márcio Ezequiel

Conto: “Comunicado oficial”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



Rodrigo Rosp

Editora Não Editora

Melhor Editora do Ano do Açorianos de Literatura na Categoria Editora

Porto Alegre, 2008



Rudiran Messias

Livro: Eros em Decúbito, de Alpheu Godinho

Melhor capa do Ano do Açorianos de Literatura na Categoria Capa

Porto Alegre, 2008



Valmor Bordin

Poesia: “Balada dos pés tristes”, primeiro lugar no II Concurso Nacional de Poesia, Fenavinho

Bento Gonçalves, RS, 2008



Valmor Bordin

Conto: “Avental de mãe”, selecionado para o livro do Concurso histórias do Trabalho, SMC/PMPA

Porto Alegre, RS, 2008



2007

Eni Allgayer

Conto: Cine Independência

I Prêmio Literário Sérgio Farina

São Leopoldo - 2007



Eni Allgayer

Conto: Segredos

5º Lugar - XI Concurso Nacional de Contos – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão

Araraquara - São Paulo - 2007



Eni Allgayer

Conto: Na solidão da mata

6. Lugar – Concurso TUPA-FADAP

São Paulo – 2007



Eni Allgayer

Conto: Fundo musical

Prêmio Talentos da Maturidade – Literatura

Banco Real

Brasília, 2007



Eni Allgayer

Conto: O encontro

9º Lugar no III Prêmio Maximiano Campos de Literatura

Pernambuco, 2007



Ana Mariano

Livro: Olhos de cadela

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura na Categoria Poesia

Porto Alegre



Bernardo Moraes

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura na Categoria Contos

Porto Alegre



Bernardo Moraes

Livro: Minimundos

Prêmio: Autor Revelação de O Sul, Nacional e os Livros

Porto Alegre





Cláudio Levitan

Um dos 3 finalistas do Açorianos de Literatura na Categoria Infanto-Juvenil

Prefeitura Municipal

Porto Alegre



César Azevedo

Poema: Musa de argila

Destaque no Prêmio Histórias de Trabalho 2007

Porto Alegre – 2007



Cristiana Amaral dos Santos

Poema: És a perfeição encarnada

Segundo Lugar no IV Concurso Expresso das Letras

Porto Alegre – 2007


Maria da Glória Jesus de Oliveira

Poema: Bilros

Destaque no Prêmio Histórias de Trabalho 2007

Prefeitura Municipal

Porto Alegre



Márcio Ezequiel

Conto:Matinê

3º Concurso Literário Mario Quintana

SINTRAJUFE

Porto Alegre, 2007



Domingos Dalabilia

Conto: Meninos morrem de medo

Categoria: Euconto.com

8. Concurso e Contos do Palco Habitasul

Porto Alegre, 2007



Luciano Mattuela

Conto: Teresa ainda olhava para o aquário

Categoria: Palavra de autor

8. Concurso e Contos do Palco Habitasul

Porto Alegre, 2007



Lívia Petry

Conto: Jules et Jim

1. lugar no Concurso Caio Fernando Abreu

Instituto de Letras da UFRGS

Porto Alegre, 2007



Rodrigo Alfonso Figueira

Conto: Cancha Reta

Menção Honrosa do Júri

XI Concurso Nacional de Contos – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão

Araraquara - São Paulo – 2007



Aline de Oliveira

Conto: Amigos

Um dos dez selecionados no VI Concurso de Contos da Biblioteca Leverdógil de Freitas

Porto Alegre - Rio Grande do Sul – 2007



Mireme Pessoa

Poesia: Vazio

Prêmio FURS/ARGL

Rio Grande, RS.



2006

André Daniel Reinke

Conto: Só

Destaque Concurso Osman Lins de Contos

(Fundação de Cultura Cidade de Recife)

Recife, 2006



Cecília Cassal

Poema: Falta

Primeiro lugar 3º Concurso Nacional Fernando Albino da Rosa

Santa Rosa, 2006



Claudia Lopes

Conto: Mundinho

Primeiro lugar II Concurso Literário Mario Quintana

(SINTRAJUFE/RS)

Porto Alegre, 2006



Cleo de Oliveira

Livro de contos: Descontágio

Prêmio Literário Livraria Asabeça

São Paulo, 2006



Leila de Souza Teixeira

Conto: Processo desconstrutivo

Destaque Concurso Osman Lins de Contos

(Fundação de Cultura Cidade de Recife)

Recife, 2006



Leila Teixeira

Conto: Corte seco

Segundo Lugar II Concurso Literário Mário Quintana (SINTRAJUFE/RS)

Porto Alegre, 2006



Lívia Petry

Poema: Primeira Pedra

Primeiro lugar no IX Concurso de Poesia Mário Quintana (promovido pela UFRGS)

Porto Alegre, 2006



Lívia Petry

Poema: Noites Brancas

Menção Honrosa no IX Concurso de Poesia Mário Quintana (promovido pela UFRGS)

Porto Alegre, 2006



Mireme Sartori

Conto: Professora Ada

Menção honrosa no Concurso Literário Jubileu de Prata

Academia Rio-Grandina de Letras de Rio Grande, RS

Rio Grande, 2006



Márcio Ezequiel

Conto: Baixa

Destaque Concurso Histórias do Trabalho - Edição 2006

(Secretaria Municipal de Cultura)

Porto Alegre, 2006



Monique Revillion

Livro: Teresa, que esperava as uvas

Autor Revelação Prêmio O Sul, Nacional e os Livros 2006

Porto Alegre, 2006



Monique Revillion

Melhor Livro do Ano Prêmio Açorianos

Porto Alegre, 2006



Monique Revillion

Melhor Livro de Contos Prêmio Açorianos

Porto Alegre, 2006



Neli Margarida Stein

Conto: Professor?

Destaque Concurso Histórias do Trabalho

Porto Alegre, 2006



Nelson G. Safi

Conto: Paciência

Destaque 7o. Prêmio Revelacão Literaria PalcoHabitasul

Porto Alegre, 2006



Guido Koppitke

Romance: Enchentes

Finalista Prêmio Editora Record/SESC

Rio de Janeiro, 2006



Ricardo Morales Brum

Conto: Atestado de óbito

Destaque 7o. Prêmio Revelacão Literaria PalcoHabitasul

Porto Alegre, 2006



Rodrigo Alfonso Figueira

Conto: Madrugada de Abril

Destaque Concurso de Contos UNICAMP ano 40

Campinas, SP



Rodrigo Alfonso Figueira

Conto: Madrugada de abril

Destaque Concurso XVI de Contos Luiz Vilela

Ituiutaba, 2006



2005

CeciLia Cassal

Conto: Avon chama

Destaque no Concurso Histórias do Trabalho

(Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre)

Porto Alegre, 2005



CeciLia Cassal

Poema: Dote Para um Recomeço

Dstaque no Concurso Poemas no Ônibus

(Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre)

Porto Alegre, 2005



Daniela Langer

Conto: Morrente

Destaque no Concurso Osman Lins de Contos

(Prefeitura do Recife)

Recife, 2005



Emir Ross

Conto: Mamãe trabalhava à noite

Destaque Prêmio Literário João Simões Lopes Neto

Pelotas, 2005



Josimara T. Estigarribia

Poema: Devaneio de um grão de areia

Concurso Poemas no Ônibus da Secretaria Municipal da Cultura

(Destaque)

Porto Alegre, 2005



Luciano Assis Mattuella

Conto: Pássaros de Desatar Destino

Segundo Lugar no III Concurso Municipal de Contos de Niterói

Niterói, 2005



Luciano Assis Mattuella

Conto: Borboletas Amarelas

Vencedor da Categoria “Palavra de Autor”

6o. Palco Habitasul Revelação Literária

Porto Alegre, 2005



Rudiran Messias

Livro: Tabus, perversões e outras catarses

Vencedor do I Concurso Charles Kiefer de Livro de Contos

Porto Alegre, 2005



Roberto Medina

Crônica: Bipartidos

Primeiro Lugar no Concurso La Salle

Canoas, 2005



Saul Chervenski

Conto: A varanda

Primeiro Lugar no Concurso La Salle

Canoas, 2005



2004

Cecília Cassal

Poema: Excremências

Prêmio Habitasul de Revelação Literária

(Destaque na Categoria In versus)

Porto Alegre, 2004



CeciLia Cassal

Poema: Margaridas

Destaque no Concurso Poemas no Ônibus

(Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre)

Porto Alegre, 2004



Luciano Assis Mattuella

Poema: Tempestade

Destaque do 5o. Palco Habitasul

Porto Alegre, 2004



Marcos Gerhardt Lindenmayer

Conto: Na noite fria

Destaque no XIII Concurso de Contos Luiz Vilela

Ituiutaba, Minas Gerais, 2004



Juarez Guedes Cruz

Livro: A cronologia dos gestos

Prêmio Açorianos de Literatura – Categoria contos

Porto Alegre, 2004



Alpheu Ney Godinho

Conto: Batismo

Destaque no 13 Concurso de Contos Luiz Vilela

Ituiutaba, Minas Gerais, 2004



Rudiran Messias

Conto: Lembranças à Beira-mar

Segundo lugar no I Prêmio Literário A Gazeta

Campo Bom, 2004



Rudiran Messias

Conto: Música Techno

Destaque no I Prêmio Literário A Gazeta

Campo Bom, 2004



2003

Alpheu Godinho

Conto: Sombras

Destaque no Concurso Histórias do Trabalho

(Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre)

Porto Alegre, 2003



Alpheu Godinho

Conto: Batismo

Destaque no 13º Concurso de Contos Luiz Vilela

(Fundação Cultural de Ituiutaba)

Ituiutaba, MG, 2003



Alpheu Godinho

Conto: Respingos de sangue

Destaque no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio.

(Secretaria de Estado da Cultura do Paraná)

Curitiba, 2003



CeciLia Cassal

Poemas: Memórias da Pele e Não Gosto

Destaque no Concurso Poemas no Ônibus

(Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre)

Porto Alegre, 2003



Luciano Assis Mattuella

Conto: Homem Apenas Alma

Menção Honrosa

(Concurso Literário do Governo do Paraná)

Curitiba, 2003



Monique Revillion

Livro: Teresa, que esperava as uvas

Finalista do Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana

Porto Alegre, 2003



Nelson G. Safi

Conto: Depoimento

4° Prêmio Revelação Literária PalcoHabitasul

(Destaque na Categoria Eu.conto.com.)

Porto Alegre, 2003



Nelson G. Safi

Conto: A cabeça de Ramiro Vargas

4° Prêmio Revelação Literária PalcoHabitasul

(Destaque na Categoria Palavra do Autor)

Porto Alegre, 2003


F: É verdade que há muitos executivos procurando escrever melhor? Que milagre é esse?

K: Sim, muitos. É que eles perceberam que escrever melhor é pensar melhor, é saber dominar mais a si mesmos e a realidade.

F: Bem, preciso de dados gerais sobre a oficina, custo do curso, duração, essas coisas. Nas matérias da revista sai um serviço muito bem feito, em geral.

K: Os custos variam de 250 reais a 400 reais por mês, a depender do número de alunos em sala de aula. Os valores da PUC eu não sei. Duração: ilimitada. Os alunos desistentes são substituídos por alunos de mesmo nível. Faço uma seleção rigorosa. Transfiro alunos de uma turma à outra, conforme os perfis. Desmancho grupos que não funcionam, mesmo lotados de alunos. Isso gera um certo estresse, mas quem entra para o meu time já sabe: o método é obstinado, rigoroso. Não vendo ilusões. Meus alunos estudam do Aristóteles às modernas teorias literárias. Quando ingressam, são convidados a ler minha tese de doutorado A poética do conto, Editora Nova Prova. Para que não reclamem de venda casada, dou a obra de presente na matrícula.

F:: Preciso também de sua minibiografia (por causa do curto espaço, naturalmente).

K: Charles Kiefer é autor de mais de 30 livros, de ficção, poesia, ensaios. Publicado no Brasil, na França e em Portugal, já vendeu mais de 350 mil exemplares de seus livros. Tem peça de teatro que já foi encenada no Brasil, França, Suíça, Polônia, Itália e outros países. Walmor Chagas representou no cinema um de seus personagens mais fortes, no filme Valsa para Bruno Stein. É professor da PUC. Tem mestrado em Literatura Brasileira e Doutorado em Teoria da Literatura. É feliz, pois vive do que mais gosta de fazer: ensinar e escrever. Pai de duas filhas, Maíra e Sofia, suas obras-primas.

F: Se quiser dizer mais alguma coisa, por favor, não se acanhe. Há pérolas que a gente, digo, nós, jornalistas, nem suspeitamos que existam, só o entrevistado sabe.

K: Gostaria de referir ainda 3 coisas:

1. O Prêmio Sofia. Neste ano, um de meus alunos ganhará 3 mil reais pelo melhor livro publicado em 2009. A entrega será feita em 22 de março de 2010. Fazem parte do júri Luiz Antonio de Assis Brasil, Regina Zilberman e Carlos André Moreira. O prêmio é um fomento à qualificação da produção de meus próprios alunos. Só concorre que foi ou é aluno das oficinas literárias CK.

2. A publicação, em 08 de março, da antologia Outra mulheres. Há onze anos, publiquei O livro das mulheres, que trazia contos de jovens autoras como Letícia Wierchowski, Martha Medeiros, Cínthia Moscovith, Adriana Lunardi, entre outras. A nova antologia traz Ana Mariano, Monique Revillion, Eni Allgayer, Cristina Moreira, Daniela Langer, Leila Teixeira, Lívia Petry, entre outras. O livro é o resultado de um concurso entre as centenas de mulheres que já passaram pelas minhas oficinas. Tenho certeza que algumas delas virão a ser as novas damas da moderna literatura brasileira contemporânea.

3. Gostaria de convidar os leitores da revista a visitarem: http://charleskiefer.blogspot.com (onde publico textos teóricos sobre oficinas etc); http://gosteimuito.blogspot.com (onde publico contos de alunos meus e escritores amigos); http://fortunacriticadecharleskiefer.blogspot.com (onde se encontram textos (blog ainda em construção) a respeito dos meus livros); http://ficcionesck.blogspot.com (onde publico contos meus traduzidos para o espanhol, blog ainda em construção); http://oficinaliterariacharleskiefer.blogspot.com (onde publico informações sobre as atividades da empresa, cursos, concursos etc).

terça-feira, 6 de abril de 2010

O exemplo que vem de São Paulo

Recebi, de Regina Zilberman, o texto que reproduzo abaixo, escrito por Franco Lajolo, ex-vice-reitor da USP. Vale a pena ler e aplaudir, e repetir aqui, no RS, programas deste tipo. Quem é meu aluno na PUC, sabe: sempre dou livros de presente, a todos da chamada. Custa-me caro, pois pago do próprio bolso. Tem gente que paga dízimo, eu pago livros. Que outros façam o mesmo, e que as instituições brasileiras sigam o exemplo da Universidade de São Paulo. (CK)


BOLSA LIVRO: A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INVESTE NA LEITURA DE SEUS ALUNOS

A escola brasileira está em pauta.

A cultura da avaliação, em boa hora implantada nos diferentes níveis do ensino, no que se refere ao ensino fundamental, tem dado oportunidade a que de norte a sul, diferentes vozes se façam ouvir na esteira dos irrefutáveis e sombrios diagnósticos da educação brasileira. Diagnósticos tanto mais sombrios quando, recentemente, prova de avaliação de docentes da rede pública paulista mostrou o grande despreparo de fração significativa do magistério.

Sem professores competentes, não há ensino competente.

Face ao descalabro, não faltam nem propostas nem acusações. Se as primeiras são tímidas, as últimas costumam ser espalhafatosas. Dentre as propostas, as mais alvissareiras são as que divulgam iniciativas e projetos que, por terem a aval de instituições que gozam de credibilidade podem inspirar réplicas .

É neste contexto que ganha vulto uma iniciativa da Universidade de São Paulo que, fiel a seu projeto de aliar equidade e competência em seus projetos sociais, como o de permanência dos alunos, inclui, no orçamento para 2010 , uma bolsa livro.

A iniciativa inspira-se na crença de que a sala de aula e a voz do professor não constituem o único espaço nem o único instrumento de aprendizado. Tampouco apenas laboratórios e computadores. O conhecimento, é verdade, circula por vários caminhos, mas circula sobretudo pelas linhas e entrelinhas dos livros. E da mesma forma que a universidade se preocupa com alojamento e alimentação de seus estudantes mais carentes, é preciso que ela também lhes faculte um trânsito mais desenvolto pela cultura letrada.

Pois, se a fragilidade das práticas de leitura estão na base da precariedade dos resultados conseguidos pela escola brasileira – desde sua base – uma ação no patamar mais alto do sistema educacional pode qualificar o cenário dos patamares intermediários. Sobretudo na área de humanas – cujos egressos em boa parte habilitam-se para o magistério- a leitura é fundamental, e não apenas a leitura de livros didáticos, técnicos e especializados.

Se a bibliografia básica de cada área é obrigação da universidade providenciar – e o sistema de Bibliotecas da USP é zeloso nesta função- a bolsa-livro tem por horizonte a formação de leitores, de jovens leitores apaixonados pela leitura, que não vêem fronteiras entre os gêneros, e que já sabem ou que vão aprender que têm nos livros parceiros indispensáveis para a grande aventura do conhecimento em nome da qual chegaram à nossa universidade.

É exatamente para isto que a bolsa-livro existe.

Serão, neste primeiro ano, quinhentas bolsas: 10 parcelas de 120,00 reais – totalizando 1200,00 reais ano para cada aluno contemplado. Para ele comprar livros. Para ele começar ou ampliar sua biblioteca. Mas não é apenas da perspectiva do leitor que este projeto é importante: do ponto de vista econômico, esta iniciativa da Universidade de São Paulo representa também uma injeção de R$ 600.000,00 anuais no mercado livreiro.

Cifra nada desprezível e que pode e deve esperar uma contrapartida, como por exemplo a de venda de livros mais baratos para os estudantes beneficiados com esta bolsa. Particularmente as editoras universitárias – a exemplo do que a EDUSP já planeja – são parceiras naturais deste projeto. E, na esteira delas, com certeza a Câmara Brasileira do Livro será também interlocutora privilegiada nas propostas e alternativas para sua implementação.

Neste ano em que o mundo brasileiro dos livros e dos leitores foi tão duramente atingido pela morte de José Mindlin, a iniciativa desta bolsa-livro é um preito de saudade, que evoca a figura alegre e generosa do intelectual que sempre se considerou depositário dos livros de sua fantástica biblioteca, parte da qual, em breve estará na Cidade Universitária .

Dar o nome de José Mindlin a esta bolsa pode ser o gesto de reconhecimento e homenagem de nossa universidade a seu grande amigo, que se fará presente cada vez que um livro, tornado acessível através desta bolsa, faça um jovem sorrir de felicidade: afinal, o ex-libris de José Mindlin rezava: je ne fais rien sans gaieté .

Franco Lajolo (foi Vice-Reitor da USP de março de 2006 a março de 2009).

fmlajolo@usp.br

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um bom porto, um bom fim

Uma cidade, um bairro, uma rua, um desvão de escada não são feitos apenas de cimento e vidro, praças e casas, árvores e asfalto, degraus e quinquilharias, mas também, e principalmente, de lembranças, desejos e ilusões. As coisas vivem num deplorável estado de coisas. Somos nós que lhes damos a alegria do sentido. Uma cidade, um bairro, uma rua, um desvão de escada podem alcançar, pelo nosso olhar, pelo nosso sentir, a transcendência que têm um figo maduro, um colibri assustado, uma criança ferida. E as coisas  transcendidas podem nos ajudar a viver com mais serenidade, com maior ternura e humanidade.

Vivo na fronteira dos bairros Independência e Bom Fim, mas a minha tendência, em tudo, e sempre, é descer a lomba, pela Miguel Tostes ou outra rua qualquer. De manhã, ministro oficinas na Livraria Palavraria, na Vasco da Gama. Marta e Sofia são assíduas freqüentadoras da Espaço Vídeo, e eu me abasteço de pão camponês e de croissants nesse cantinho de Paris que é Bolangerie Carina Barlett. Apaixonado por frutas, percorro o bairro atrás de cajus, araticuns, romãs, carambolas e outros exotismos da flora nordestina, amazônica e chilena.

Quando cheguei aqui em Porto Alegre, em 1982, não tinha dinheiro para alugar um apartamento num bairro de classe média, mas fui generosamente convidado a morar com o professor Mario Arnaud Sampaio e sua esposa, Zelia Dendena, na Felipe Camarão. Lá fiquei por dois meses, “fazendo caixa”. Ia ao trabalho, na Editora Mercado Aberto, na zona norte, a pé, todos os dias de madrugada, para economizar com passagens.

Um dia, diante de meu ar deprimido, Roque Jacoby, meu empregador, perguntou-me à queima-roupa:

– O que tu tens, guri?

– Saudade – eu respondi.

E assim, auxiliado por ele – que além de me dar um bom empréstimo, que paguei em muitas parcelas, sem juros, e servir-me de fiador –, aluguei um apartamento na Avenida São Pedro com Bahia. Eu trouxe a família de Três de Maio e comecei a minha vida profissional na “mui valerosa” capital. “Valerosos” foram Sampaio e Jacoby, que me estenderam a mão. Sem eles, meu fim seria o retorno à terra natal, ou a partida em busca de outra terra.

Nunca esqueci as ladeiras do Bom Fim, as velhas árvores, o ar de bairro europeu. Marta, que me deu Sofia, conseguiu um apartamento na fronteira do bairro e nos mudamos para cá, há oito anos. Ela, que não se permite raízes, quer partir; eu quero ficar. Camponeses são poços. É mais fácil transferir um bairro que um poço. No que me cabe, o Bom Fim é uma terra amigável onde claudicar os passos, um lugar tranqüilo onde descansar os ossos. Só me arranca daqui o Caronte, com sua barca inevitável.

domingo, 4 de abril de 2010

Segunda chance

Dá a outro o livro que não queres
porque ele antes não te quis.

Os livros, às vezes, erram de estante
como nós erramos o caminho.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Características dos personagens (Stanislavski, Konstantin S.)

Aspectos físicos

01. Etnia
02. Sexo
03. Idade
04. Altura
05. Peso
06. Aparência geral
07. Cor do cabelo
08. Olhos
09. Pele
10. Voz
11. Saúde
12. Cores preferidas
13. Jeito de caminhar
14. Postura habitual
15. Gestos

Aspectos sociais

01. Nacionalidade (procedência)
02. Onde vive (cidade, país, lugar, região)
03. Classe social
04. Lugar que ocupa no seu meio social
05. Se está de acordo com o meio
06. Educação
07. Vida familiar (os pais, os filhos, se vivem, relacionamento, antepassados que interfiram)
08. Estado civil
09. Relacionamento com a pessoa amada
10. Vida econômica
11. Religião
12. Idéias políticas
13. Passatempos
14. Onde vive (como é a casa)

Aspectos psicológicos

01. Vida sexual
02. Normas morais
03. Correspondem à religião?
04. Atitude frente à vida (filosofia pessoal)
05. Ambição – o que espera conseguir?
06. Qual o maior objetivo na vida?
07. Pelo que se interessa profundamente?
08. Contratempos e desenganos
09. Temperamento
10. Complexos e inibições.
11. Qualidades e faculdades intelectuais.
12. Tem alguma psicopatia? (fobia, alucinação, mania, etc.)


Aspectos literários

01. Em que parte da obra aparece?
02. O que faz dentro da obra? (ações físicas)
03. No começo da obra, o que sente pelos outros personagens?
04. O que sentem os demais em relação a ele?
05. O que dizem a respeito dele?
06. Qual a sua relação com o protagonista?
07. Que tipo de relacionamento tem com os demais personagens?
08. Qual o seu objetivo máximo, na obra?
09. Consegue atingir seu objetivo máximo?
10. Para alcançar seu grande objetivo que gradação de objetivos menores tem que enfrentar?
11. Que obstáculos se antepõem a cada um de seus objetivos?
12. Qual a reação frente às dificuldades?
13. Causa dano ou benefício a alguém?
14. No decorrer da obra, mudam seus sentimentos em relação aos outros?
15. Mudam os sentimentos dos outros em relação a ele? Por quê?

(Esta é uma síntese dos aspectos que Stanislavski considerava importante para a composição da personagem teatral. Pode, tranquilamente, ser adaptada, como foi feito aqui, à composição da personagem literária. CK)