1. Ninguém nasce escritor, torna-se escritor. E o que leva alguém a se transformar em escritor é a genética e a cultura. A primeira é destino, a segunda – é conquista. Para a primeira, ainda não temos solução. Para a segunda, basta a vontade, o desejo de ser. Como dizia Jean Paul Sartre, um ser humano será, acima de tudo, aquilo que tiver projetado ser.
2. Vontade sem ação é devaneio. Para de sonhar e age. Escrever é como nadar, como andar de bicicleta – é preciso movimentar os braços, movimentar as pernas. No caso da escrita, é preciso movimentar o cérebro.
3. O melhor exercício para o cérebro é a leitura. Além de nos transformar em escritores, a leitura é importante para a saúde, evita o Mal de Alzheimer.
4. Um escritor não precisa ser um lobo solitário, como pregava Hermann Hesse. Pode – e deve – freqüentar cursos acadêmicos, oficinas literárias. Aliás, hoje em dia, é aconselhável que pretendentes à escritura evitem o romantismo e as idéias feitas.
5. Desde o tempo de Platão e Aristóteles, só há dois tipos de escritores, os idealistas e os materialistas, e não há conciliação entre os dois. Há extraordinários escritores idealistas e péssimos escritores materialistas, e há extraordinários escritores materialistas e péssimos escritores idealistas.
6. Ser um escritor idealista ou materialista é só uma questão de ideologia, de visão de mundo. Evite, apenas, o panfletarismo, que é o uso servil das idéias. Não existe literatura isenta, politicamente. Na estrutura profunda de um texto, a ideologia sempre se manifesta. Na estrutura aparente, ou de superfície, o que importa é a técnica.
7. Só existem bons e maus escritores, no sentido técnico. O que são bons escritores – ainda não sabemos. O que são maus escritores nós o sabemos sobejamente.
8. São maus escritores aqueles que constroem histórias desconexas, de temas inexpressivos e estereotipados, em estilo adiposo, desajeitado, flácido, sem harmonia e sem sutileza, com cenas e situações inverossímeis, compostas com descrições desnecessárias e sem articulação com a narração, e arrematadas com diálogos artificiais e inúteis.
9. Todo escritor é um vir a ser. Acreditar-se pronto e acabado é o princípio da morte autoral. A obra prima pode ser a primeira, a décima segunda ou a última obra de um determinado autor. Quem assina a obra completa é a morte. Enquanto vivo, o escritor é um ser em construção. Por isso, o orgulho e a vaidade são extremamente perigosos. Quem sacraliza o próprio texto pode inventar uma nova religião, mas não uma grande literatura.
10. Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve. Na absoluta solidão de seu ofício, enquanto a mente elabora as frases e a mão corre para acompanhar-lhe o raciocínio, é escritor. Nesse espaço, entre o pensamento e a expressão, vibra no ar um ser sutil, fátuo e que, terminada a frase, concluído o texto, se evapora. Nesse átimo, o escritor é escritor. Aí e somente aí. Depois, já é o primeiro leitor, o primeiro crítico de si mesmo e não mais escritor.
Ser Humano (Augusto Britto)
4 meses atrás
Como ja disse antes não tenho pretensões literárias, apenas ser uma boa leitora e realmente, seguindo este caminho se conhece as variadas etapas, passo a passo, de todo processo criativo, os mecanismos de funcionamento do sistema, tornando-se mais fácil entender a arte da escrita. Obrigado por mais esta belíssima aula!!!! "talvez não seja possível ensinar a escrever; mas é plenamente possível ensinar a aprender a escrever" Charles Kiefer
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ResponderExcluirCaro Charles,
ResponderExcluirTive o prazer de reencontrá-lo neste texto que nos diz coisas instigantes como "Quem assina a obra completa é a morte". "Na absoluta solidão de seu ofício, enquanto a mente elabora as frases e a mão corre para acompanhar-lhe o raciocínio, é escritor. Nesse espaço, entre o pensamento e a expressão, vibra no ar um ser sutil, fátuo e que, terminada a frase, concluído o texto, se evapora. Nesse átimo, o escritor é escritor. Aí e somente aí. Depois, já é o primeiro leitor, o primeiro crítico de si mesmo e não mais escritor". Seu texto me faz pensar no quando perseguimos, no enigmático processo da escrita, com intuição e/ou clareza, a dimensão sublime que, como ruptura epifânica, instaure ou resgate nossa dimensão humana, nossa capacidade de espanto, nosso contato com o frágil tecido vivo que nos constitui.
grande abraço de um antigo e grato participante de seus espaços de reflexão literária,
Com objetividade, Kiefer amplia a visão generalizada de que a maioria de nós leigos, temos. Que é a inocência de que para se ser escritor, basta escrever o que vier de primeiro na cabeça.
ResponderExcluirCaro professor:
ResponderExcluirAinda não li o teu livro, mas pretendo ler.
Uma frase me chamou a atenção no texto:
"Todo o escritor é um vir a ser".
Penso, também, que o escritor é a pessoa que nunca deixa de escrever, como exercício de aprimoramento de obras.
abraço
Viver também é um vir a ser e viver.
ResponderExcluirAgradeço todo dia por ter dividido espaços e experiências na escrita contigo. Ando remando bastante e creio estar em algum caminho - espero que o construtivo.
A vaidade arranca os olhos do cego. Grande perigo tal como o de não acreditar que criou algo que vá tocar e prender a atenção de alguém. Precisamos de tato.
Acabo de ancorar aqui, já cativada pelas primeiras linhas... Vou desembarcando. Um abraço de benchegança.
ResponderExcluirQue belo texto, que belo exemplo de ideias a seguir, teu amor literário é uma arma carregada de futuro, alvo certeiro de cidadania, lietartura e amor de construção.
ResponderExcluirVou sequestrar lá para o Vidráguas e que o resgate seja a difusão de teus livro.
Um abraço amigo.
Carmen.
Prezado Kiefer - Tua fluência nas postagens que tens feito são saboreadas por mim com sublime admiração. Não estava conseguindo acrescentar comentário até que agora consegui. Continuarei nas leituras e apredizados, como costumas dizer, a leitura me transforma visivelmente. Grande abraço, Tovo.
ResponderExcluirDicas utilíssimas.
ResponderExcluirabraço e sucesso.
Ler é dar prazer ao cérebro!
ResponderExcluirEstou com seu livro em mãos. Parabéns pelo desejo de nos oferecer este exercício. Sou cronista, publico meus textos no meu blog (giovanadamaceno.blogspot.com) e tenho também coluna fixa em um jornal de Volta Redonda/RJ, onde moro. Lancei um livro recentemente - "Mania de Escrever" -, com uma seleção de 40 crônicas publicadas entre os anos de 2007 e 2009. Com o objetivo de ler, reler, aprender sempre, descobri seu livro - "Para ser escritor" -, que está muito longe de se parecer com as obras existentes até agora sobre este tema. Muito bom mesmo. Já está virando livro de consulta. Grande abraço.
ResponderExcluirProfessor Charles Kiefer, terminei a leitura de Para ser escritor. Puxa, você diz muita coisa boa ali. Gostei bastante. Gostaria de perguntar duas coisas: 1. o segundo haicai da página 79, Vovô avisava:/Olho de boi, olho d'água./Só o tempo se afogou. Justamente este verso "Só o tempo se afogou.", não deveria ser com 5 sílabas métricas? Ou há esta possibilidade? Ou eu não entendi métrica ainda?
ResponderExcluir2. Na página 153, você usa a segunda pessoa do singular na última frase, não deveria ser a terceira pessoa?
Pretendo ler os outros livros seus! Solicitei à biblioteca de minha escola que compre mais exemplares de sua obra para a leitura de meus alunos. Um abraço,
S.L.
Curti.
ResponderExcluirAcho que comecei idealista e agora escrevo feito um materialista.
De qualquer forma, incompleto.
Boas palavras.
Abraços.
Excelente decálogo do perfeito contista, fazendo alusão ao admirável Horacio Quiroga. De fato, muitos artistas da palavra do século XX, no que diz respeito ao conto, legaram-nos testemunhos de seu ofício. Vide Felisberto Hernández, Julio Cortázar, Jorge Luiz Borges, José Lezama Lima etc. Soma-se este, de Charles Kiefer.
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