segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ofensas à velocidade da luz

Muitas vezes, a caminho de uma Agência dos Correios e Telégrafos, rasguei cartas que iria enviar. Entre o tempo da escritura e a remessa da carta, o coração serenara, e o que era mágoa, desilusão ou simples raiva transformara-se em outra coisa, perdão, compreensão ou simpatia pelos erros alheios.

No tempo das carruagens, o mal também se movimentava com lentidão. Ao menos, o mal epistolográfico.

Hoje, não. Hoje, quando nos damos conta, a ofensa já partiu à velocidade da luz.

Não conheço a experiência dos meus leitores, mas eu, mesmo sem querer, já magoei algumas pessoas por e-mail. Ou porque não refleti suficientemente antes de enviá-lo; ou porque o destinatário – na sua pressa igual a minha – leu mal e interpretou o conteúdo equivocadamente.

Ganhamos em rapidez e comodidade com a advento do e-mail, mas estamos perdendo em humanidade e delicadeza.

Os deuses, como diziam os fenícios, e que Fernando Pessoa plagiou, vendem quando dão.

16 comentários:

  1. Um bom hábito é salvar como rascunho o e-mail escrito sob cólera, que provavelmente será apagado após releitura no dia seguinte. Neste meio tempo que tal uma caminhada nostálgica até os correios? :-)

    ResponderExcluir
  2. Excelentes sugestões, Luciano!

    Abraço,

    CK

    ResponderExcluir
  3. Charles,

    Talvez devessemos ter uma função, em nossos programas de correio eletrônico que, na primeira vez que enviássemos uma mensagem, ela sofresse um retardo e voltasse para nós mesmos. Assim poderíamos sentir, ainda que de forma menor, o impacto de recebê-la. Se ainda assim, quiséssemos enviá-la ao destinatário, o programa aceitaria isto na segunda vez. Caso contrário, shift+delete.

    Um grande abraço

    Eduardo Sommer

    ResponderExcluir
  4. Na verdade, a sugestão do Luciano é uma adaptação contemporânea do ensinamento de Abrahan Lincoln: "quando tiverdes de enviar uma carta dura a um desafeto, escreva-a e a deixe a descansar em uma gaveta por uma semana antes de enviá-la. Possivelmente você não a enviará após este prazo".

    Sim, Charles, já me arrependi de emails que enviei... Aliás, em emails de trabalho, aprendi que se deve ser bastante econômico. O que abunda atrapalha, cai bem aqui. Ou, como você diria, há de se evitar o "estilo adiposo".

    Abraço
    Cesar

    ResponderExcluir
  5. Charles.

    Lincoln estava certo, só que às vezes o tempo pode superar o de uma semana... E isso também vale para conversas. Muito melhor é adiar uma conversa que poderia se tornar um embate e assim conseguimos administrar melhor os conflitos.

    Beijos, Naiana.

    ResponderExcluir
  6. Breve e direto ao ponto. Já me arrependi e muito. A tecnologia já me proporcionou momentos bastante difíceis e que certamente seriam poupados com um bom e "velho" "olhos nos olhos"... Mas a gente vai aprendendo a driblar isso e tentar usar só o que a tecnologia tem de bom, como matar a saudade de um professor através do blog! :)
    Beijo!

    ResponderExcluir
  7. É verdade..acionando o pensamento com a mesma velocidade que se aciona o botão enviar! Quem já não cometeu um desatino, e magoou alguém por email... e o pior, sem intenção. Eu também já o fiz. Mas pelo menos neste caso há possibilidade de retratação imediata!
    Para mim essa tecnologia é inimiga dos que como eu, são distraídos, e podem fazer coisas do tipo clicar no "responder a todos" quando a intenção era dizer algo somente para o remetente. Ai pode complicar....
    Tua ponderação me fez lembrar da música de Jorge Drexler, diz respeito um pouco sobre o tema.
    http://www.youtube.com/watch?v=sMem2cAiif8

    ResponderExcluir
  8. Maria da Graça2/8/10 16:16

    A Marta Medeiros numa crônica, recentemente, criticou o sinal de riso, os tão usados: rsrssrsrs ou hehehehe.
    Eu, no entanto, acho muito útil, pois o e-mail nos permite uma linguagem coloquial, mas sem que interlocutor possa ver a espressão de nosso rosto. Daí é possível resultar em confusões, uma brincadeira,que pessoalmente seria engraçada, na tela pode geral um mal entendido. O sinalzinho "amigo" de riso, pode nos evitar muita saia justa. Abraços. Graça

    ResponderExcluir
  9. caro Ck, acho que vou contra a maré. Penso que o e-mail e mensagens apressadas podem também ter sua validade. O impulso pode ser, por vezes, a única forma de expressarmos o que realmente queremos dizer. Um stream-of-consciouness virtual pode não ser agradável ou acessível a quem recebe, mas será, com certeza, expressão sem filtros de quem envia. Nem sempre toleramos o que vem do outro, mas acho que devemos lidar com o que produzimos no outro.
    Ricardo Silveira

    ResponderExcluir
  10. Infelizmente, não só as ofensas andam à velocidade da luz como a repercussão destas. O âmbito privado está cada vez mais sendo devassado.
    Abraço,
    Cátia

    ResponderExcluir
  11. Eu acho interessante essa velocidade.

    Pouco abro meu e-mail, mais raramente ainda mando algum. Me relaciono com algumas pessoas por uma outra rede social, marco encontros, indico livros, leio poemas e contos de amigos, mostro alguns que produzo. E tudo, dentro dessa era da velocidade. Mas com passos de tartaruga. Meus amigos até já se acostumaram. Geralmente demoro uns 3 dias para escrever cartas virtuais. Tenho um blog e quase não publiquei meus contos neles, fico esperando um retoque aqui, outro acolá. Acabo esquecendo de digitalizar.

    A velocidade da luz é uma benção dos deuses-astronautas, cientistas de vênus. Basta a sabedoria de um jovem-ancião ou semi-deus para controlá-la.

    ResponderExcluir
  12. Já dizia Nelson Rodrigues, "que achava a velocidade um prazer de cretinos." Na ocasião, falava sobre a deleitosa vagarosidade dos bondes, que pareciam não chegar nunca. Mas eu acho que, o primeiro trecho da citação, vem muito a calhar.

    Abraço, Sr. Charles.

    ResponderExcluir
  13. Anônimo3/8/10 09:14

    Por volta de 1850 Victor Hugo disse:
    "Pessoal, prestem atenção às coisas que vocês dizem" porque "a palavra é o verbo e o verbo é Deus".
    Então, pessoal, não importa como e em que velocidade a palavra de desloca, depois de dita ela não nos pertence mais. Prestemos, pois, atenção às coisas que são ditas.
    Ayalla de Aguiar

    ResponderExcluir
  14. Acho que todos nos identificamos com este post. A internet deu à escrita a velocidade do oral e, como bem lembrou a Ayalla, a palavra dita pode até ser consertada mas não mais recolhida.

    ResponderExcluir
  15. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  16. É como diz o ditado: há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida...ja me arrependi amargamente por ter agredido, sem querer, usando esta máquina assustadora, que é a internet.Mas sempre é possível pedir perdão e recomeçar...bjss

    ResponderExcluir