quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Apresentação de “O pêndulo do relógio e outras histórias de Pau-d´Arco”

Gosto de ver estas três histórias reunidas num só volume – todas se passam em Pau-d´Arco, a cidade ficcional que inventei em 1982. O pêndulo do relógio talvez seja o meu texto mais seco, mais econômico e mais sofrido, como é a vida dos colonos mini-fundiários de minha terra natal, onde não cantam as jandaias, que as árvores todas foram derrubadas para o plantio de soja. Mas este livro raquítico, de frases sincopadas, de capítulos minúsculos, me deu a primeira grande alegria literária – uma estatueta do Jabuti, o prêmio da Câmara Brasileira do Livro, aos 26 anos. Prêmios, num país que dá tão pouca importância à literatura, são selos de autenticação, abrem portas, consolidam carreiras. Não me senti vaidoso com a honraria, mas cresceu em mim o sentido de compromisso, de auto-exigência e de postura artística. Outros prêmios vieram, mas nenhum foi tão importante como aquele, pois ele afirmava que era possível que o coloninho de Três de Maio se transformasse em escritor. E agora, tantos anos depois, ao reeditar a obra em cuidadosa nova edição, ampliada de outras duas histórias, comovo-me outra vez.

Nós, escritores brasileiros, somos como aquele personagem da literatura grega que tanto me fascinou na infância. Empurramos a pedra montanha acima e não desistimos, despenque ela, montanha abaixo, quantas vezes o destino quiser.

Na história de Alfredo Müller, o protagonista, o pêndulo parou. Na minha, não. Continuei escrevendo outras histórias, povoando a minha cidade inventada com outros dramas, outras lutas, outras desgraças e outras vitórias. Vinte e cinco anos se passaram desde a primeira edição, e os pequenos agricultores de meu país não só perderam as suas propriedades como foram parar na periferia das grandes cidades, nos acampamentos de sem-terra. Relendo a obra agora, me dou conta que ela não envelheceu, que ainda mantém a contundência, que ainda pode ser lida pelas novas gerações. Esta é a décima vez que ela desce ao prelo, e não será a última.

"A traíra" também se passa em Pau-d´Arco. De certa forma, o narrador poderia ser neto de Alfredo Müller. Essa história, publicada em 1992, me deu dois prêmios, o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e mais um Jabuti. Gosto do meu tom melancólico e dos ecos de Nick Adams, o grande personagem de Hemingway. Aquele deslocamento, aquela incompreensão de que meu narrador se sente vítima, ainda hoje me persegue. O albatroz, de Charles Baudelaire, explica melhor isso tudo, mas eu só li o poema muitos anos depois de haver escrito a história.

E "O poncho", publicado em 1996, não me deu prêmio nenhum, exceto o de sentir a impagável sensação de ter escrito uma boa história. Ao relê-lo, ainda me emociono, e é como se eu próprio visse um poncho dependurado num canto do quarto. Ele representa tudo aquilo de que não conseguimos nos livrar. A influência aí é de O capote, de Gogol, mas não na linguagem. O núcleo do enredo é antigo, data do século XII, no Japão: a história de um homem que vai à guerra e que, ao regressar, muitos anos depois, reencontra o fantasma da noiva que abandonou. Eu não conhecia a narrativa japonesa, mas conheço a força do mito, que renasce em todos os tempos e em todos os lugares. No fundo, estamos reescrevendo sempre as mesmas histórias, ora na pele do camponês sedentário, que, sem ter viajado, imagina as maiores peripécias, ora na pele do viajante marinheiro, que, ainda insatisfeito com tudo o que viveu em suas andanças, mente desbragadamente.

5 comentários:

  1. Quando você disse que se emociona e se orgulha ao reler certos textos teus, me identifiquei muito com isso, pois também me acontece. Vibro com alguns contos e crônicas que escrevi! Fico ali, como um narciso que admira incansavelmente sua própria beleza, lendo e relendo, rindo sozinho da minha genialidade...

    Entretanto, muita coisa do que releio me envergonha, de tão ruim que é, segundo a visão que tenho hoje...

    abç

    ResponderExcluir
  2. Oh, capitan, my capitan!
    entao a originalidade está na apropriação do Outro? estilos, plots, tudo isso, pra produzir uma história, está relacionado ao conhecimento enciclopédico absorvido e meditado? Acreditas em outras vias de produção (as loucuras de Höderlin, as neuroses de Lawrecence? ou não? só a objetividade goethiana?)
    abraço
    C. Dall´Agnol

    ResponderExcluir
  3. shakspeareana.

    ResponderExcluir
  4. Durante minha adolescência tive um contato intenso com vários coloninhos. Eu era a garota da cidade e eles, os moradores das diversas "linhas" perto de Santa Cruz do Sul. Meu tio era médico na antiga Trombudo, que virou município e mudou de nome . Então, passei muitas férias no meio de plantações de fumo, milho, e soja, cozinhando galinhadas no meio da noite, tomando banhos de açude. Fiz vários amigos. Enquanto eu estudava no Julinho e me preparava para a universidade, me achando, os coloninhos protestantes recebiam ajuda da Alemanha e, depois da escola na roça, iam direto para faculdades de Munique, Frankfurt, Colonia... Eu quase morria de inveja pois aos 18 anos só conhecia esses lugares do mapa. Por isso, tenho a maior admiração pelos coloninhos esforçados e trabalhadores! Um prêmio literário, então. E a certeza de que a possibilidade foi alcançada! Deve ter sido o máximo. Maria Lucia

    ResponderExcluir
  5. A história do colono alemão que se enforca em Pau d'Arco por causa das dívidas é excelente. Impressionante o texto porque de uma verdade real.... é a história dos muitos colonos frustrados, de várias origens,italianos, poloneses etc... Em Flamigera também aconteceram fatos semelhantes...aliás, trabalhei na carteira agricola do Banco do Brasil nos idos de 78-83 e por isso posso afirmar que a narrativa é absolutamente ralista e, guardado o contexto dos financiamentos bancários de hoje, o homem urbano não se mata... acaba morrendo de tristeza, de enfarto, de vergonha.... ABRAÇO.

    ResponderExcluir