domingo, 16 de agosto de 2009

Carta para Sofia

Filhota,

tive certeza da tua existência na madrugada em que tua mãe acordou e me disse que estava com vontade de tomar suco de laranja.


– Estás grávida – eu disse, sentando-me na cama.


Atravessei o longo corredor que me separava da cozinha com um sentimento de euforia imenso. Há muito queria ser pai outra vez. A Maíra tinha crescido tão rápido e eu fora pai tão jovem, que restava em mim uma sensação de incompletude, como se tivesse perdido alguma coisa, ou como se não tivesse conseguido ser o pai que planejara ser. Agora, ao reviver a experiência, compreendo que o pior da vida é o esquecimento. Vivi, sim, a infância da tua irmã com toda a intensidade que me foi possível. O problema é que não registrei, por escrito, o que senti.


Hoje, corrijo um erro do passado, ao escrever para o teu futuro. Um dia, lerás estas páginas e poderás lembrar de um tempo que, neste instante, mergulha vertiginosamente no vórtice das tuas sensações, descobertas, imitações primárias. E eu, se puder reler estas páginas, poderei encontrar nelas um homem de quarenta e quatro anos completamente fascinado com a aventura de acariciar tua pele de coelhinha saltitante, de contemplar o vasto céu azul de teus olhos incendiados, de sentir a força de teus maxilares de castorzinho inquieto.


Escrevo, Sofia, para lembrar.


E para te fazer lembrar de um tempo sem lembranças. Ainda não disseste a tua primeira palavra, mas já tentas te comunicar comigo com assoprões babados, com leves batidas de tua mãozinha no meu rosto, com arranhões na guarda do sofá. Tens, minha filha, uma extraordinária capacidade imitativa. Prevejo, sem corujice, que aprenderás com rapidez e profundidade. Sou professor e a prática ensinou-me que a curiosidade é a mãe da inteligência.


Hoje, a 31 de outubro de 2002, acordaste em meu colo e viste, por que compreendeste pela primeira vez, um quadro, dependurado na parede de teu quarto, onde sorri um menino azul. Por um longo tempo, teu olhar saltou dos bonecos em terceira dimensão, espalhados pelo assoalho, para a representação plana, aprisionada na tela. Numa visada aguda e significativa me encaraste, como a pedir explicação. Ou como a me dizer: São iguais, papai, mas são diferentes. Por repetidas vezes, quando olhei para outro ponto no quarto, tua mãozinha bateu no meu peito. Como na história de Eduardo Galeano, tu querias que eu te ajudasse a ver. Teus gritos agudos, o frenesi de teus braços tentando alcançar o pequeno menino silencioso deixaram-me em silêncio. Passei a tarde pensativo, mas não melancólico. O mesmo processo que multiplica escandalosamente as tuas células, destrói as minhas.


À noite, dei aula, mas não fui o professor de sempre. Uma parte de mim, a maior talvez, ficou congelada na tarde, refugiada na eternidade da arte. E agora, esta mesma parte, cristaliza-se nestas páginas.


Escrevo à mão, sem pressa, como se o tempo tivesse, enfim, se estancado. Tu dormes no quarto ao lado, com a serenidade de um pequeno buda, teu corpo tremula com a delicadeza da cauda de um peixe. Estou aqui, na sala, e me transporto à manhã em que nasceste.


Tua mãe escolheu um hospital afastado da cidade, no alto de um morro, para te proteger dos problemas da civilização, para que o verde das árvores se colasse aos tais olhos, para que a brisa agreste limpasse os teus pulmões ainda congestionados de muco. Fiquei com a pediatra, no corredor, a espera de teu primeiro choro. Não há, pequena, palavra humana capaz de descrever o que senti ao ouvir tua ruidosa entrada triunfal neste planeta. Ainda que eu reescrevesse os livros da Biblioteca de Alexandria, não seria capaz de exprimir um milésimo da emoção que se aninhou em meu espírito. Como um pequeno facho de luz na escuridão, ele está lá, gerando a energia que me fará amar ainda mais o que foi, o que é, e o que há de ser.


Hoje, e aqui, quero te contar uma coisa que me faz estremecer, que me impressiona. Tu tens o olhar do pai de meu pai, Bernardo Augusto Kiefer. Mestre, guia e modelo, eu o amei muito. Não sou espírita. Sei que esta reencarnação é genética, mas ela me faz bem. De alguma forma, recupero, e salvo, também nisso, um tempo que estava fadado ao esquecimento. Contigo, na manhã em que nasceste, renasceu o meu avô e sua lição de paciência, de ternura, de serenidade.


Agora, ainda mais que antes, quero ser como ele – quero te levar pela mão e te ensinar a complexa ordenação das formigas e das abelhas, o caminho dos ventos e das tempestades, a gramática do pão e das frutas.

8 comentários:

  1. Charles, coisa mais linda essa de registrar as emoções para que as palavras ajudem a memória no futuro.

    Chorei.

    Beijos, da aluna e admiradora

    ResponderExcluir
  2. Lindo mesmo... Ainda quero conhecer essa menina!

    Abraço!

    ResponderExcluir
  3. Que belos momentos, que belo registro, em que a Poesia fala com Sophia e abraça a todos.

    Um abraço carinhoso.

    Carmen Silvia Presotto

    ResponderExcluir
  4. Grande presente. Só falta ser embrulhado pelo tempo.

    ResponderExcluir
  5. Charles,

    Pela data que mencionas em certo trecho, tua Sofia tem hoje em torno de 7 anos. Poxa, ainda não cheguei aí com a minha Michele, que está para fazer 2, agora em setembro. Entretanto, cpomo pai, posso entender cada figura de linguagem que você tentou usar para apreender aqueles inexplicáveis momentos, e sei também que deve ter ficado insatisfeito quando leu o que escreveu e pensou "ainda não foi bem isso!". Parece que a linguagem é insuficiente para registrar tais momentos tão sublimes; assim como as fotografias também o são... Tenho feito filmes da Michele, mas... também não conseguem captar! Oh, amor incomensurável! Só quem vive pode compreender, só quem vive.

    abç
    Cesar

    em tempo: faça como eu, ponha a foto da sua garotinha aí no blogue, para trazer sorte! Nem que seja num cantinho para os mais atentos acharem!

    ResponderExcluir
  6. Caro Charles, fui pai aos 40 e leio tuas palavras com este mesmo sentimento, de escrever para lembrar. Confesso que o Diário de Lucas ficou só no título, mas a qualquer momento resgato aqueles momentos em crônicas humoradas.
    abraço
    Guto Moisés

    ResponderExcluir
  7. Charles, querido, mal posso enxergar o teclado, diante de tanta emoção.
    Minha filha mais nova está grávida e sinto que o Universo está me mandando a segunda chance de ser mãe de uma maneira mais madura e ciente de que o tempo passa muito rápido e não podemos deixar nada para depois.
    Tenho certeza de que este ser está vindo com muita luz e para nos ensinar . Também lembrei agora, de um email teu sobre nascidos a partir do dia 23/09/2017.
    Te agradeço muito por toda a transformação que está acontecendo no meu interior e, que apesar de todo o sofrimento, sei que está me transformando numa pessoa melhor.
    Que a Sophia tenha sempre muita luz!
    Abraco!

    ResponderExcluir
  8. Charles, querido, mal posso enxergar o teclado, diante de tanta emoção.
    Minha filha mais nova está grávida e sinto que o Universo está me mandando a segunda chance de ser mãe de uma maneira mais madura e ciente de que o tempo passa muito rápido e não podemos deixar nada para depois.
    Tenho certeza de que este ser está vindo com muita luz e para nos ensinar . Também lembrei agora, de um email teu sobre nascidos a partir do dia 23/09/2017.
    Te agradeço muito por toda a transformação que está acontecendo no meu interior e, que apesar de todo o sofrimento, sei que está me transformando numa pessoa melhor.
    Que a Sophia tenha sempre muita luz!
    Abraco!

    ResponderExcluir