terça-feira, 7 de julho de 2009

Terceira nota sobre os blogs

Será que há, mesmo, algo de novo aqui? Num primeiro momento, nos primórdios da rede, suspeitei que sim.

Hoje, começo a pensar que o texto na internet não passa de “texto latente”, embrião textual encapsulado, como se no útero, à espera do instante em que virá à luz, ou seja, será publicado em livro.

Partimos das tabuletas de argila, na Mesopotâmia, passamos pelo papiro e pelo velino, no Egito e na Palestina, ficamos longo tempo aprisionados no papel de pano e no papel de celulose, na Europa, tentamos o papel de fótons, em Nova Iorque, e retornamos ao papel de celulose, em qualquer lugar do mundo.

Ou alguém teria a coragem de se anunciar “escritor” sem livro publicado? Escritor de blog?

Imaginemos, durante uma feira de livro, um “autor” abrindo um laptop e chamando o público para ver “seu” livro no monitor...

Não, ainda não. Ainda não é possível ser escritor somente em blogs. Nem sabemos se um dia será...

Talvez o blog seja isso mesmo: um espaço de treinamento, um espaço-gaveta, onde guardamos os nossos originais até a chegada da hora de fazermos a seleção do material para a publicação em livro, com capas, orelhas e colofon.

O cinema não matou o teatro. A internet não matará o livro. O mundo das formas é infinito. E, uma vez criada, uma forma se torna indestrutível.

Não nos livraremos dos livros tão cedo. Nem dos blogueiros.

12 comentários:

Cria disse...

O livro é insubstituível ... Sempre será !!

Bela postagem !!

Fabiana disse...

Uma gaveta com a chave espalhada pelo mundo.

Anônimo disse...

Mestre, dai pergunto: é escritor aquele que tiver publicado em livro? Faz o livro publicado o escritor? Parece-me que o meio não deverá definir a categoria do autor. A internet é incipiente, vasta e repleta de elementos que podem ou não fazer algum sentido. Mas é no exercício do texto que deverá sobresair o tal dom inerente ao verdadeiro escritor. Há tantos livros descartáveis, soltos, vastos, esquecidos... G.

MORALES disse...

Também acho que o livro não será substituído, pelo menos, tão cedo. Mas quanto ao fato de que o escritor, para ser reconhecido como tal, ou se apresentar assim, deva ter livro publicado, fico em dúvida. Vou refletir sobre quem pode ser visto como um escritor. Quem é escritor? Está lá no dicionário que escritor é 1 O que escreve. 2 Autor de composições de qualquer gênero literário. Mas não me parece suficiente a definição. A questão é: os escritos [literários] têm que ser publicados? E na forma de livro? Revista? Jornal? Só em papel ou vale eletronicamente?

Jeferson Montag disse...

Concordo com a importância dos blogs até então, mesmo que não substituam o livro. Também penso neles como gavetas, por isso fiz um para armazenar meus embriões de textos que podem se tornar bons.

Abraço!

João Ricardo Bittencourt disse...

Falar em substituição é exagero. Como o Kiefer postou uma nova mídia nunca exclui a anterior. Nunca é uma questão de substituição, mas de agregação. Atualmente temos teatro, livro, cinema, TV, rádio, Internet, TV digital, TV na Internet ... Também falar que "eu prefiro o livro porque é mais fácil de ler", "nunca deixarei de comprar livros", também é relativo, além do gosto pessoal (claro que a grande maioria não gosta de ler no PC) não podemos esquecer desta grande iniciativa da Amazon, o Kindle (www.amazon.com/Kindle). Inclusive permite que o autor de forma independente publique seu livro no formato digital para o Kindle sem o intermédio de editoras. O blog também pode ser usado para publicar em bits ao invés de átomos. Se será bom ou ruim depende do escrito, afinal a obra depende dele. Lembrando que o Kindle permite ler blogs. Kiefer, excelente ponto para discussão. Abraço

João Ricardo Bittencourt disse...

Ah lembrei de mais uma coisa, não resisti e fui obrigado a postar mais este complemento. Olhem esta matéria do NY Times - http://www.nytimes.com/2009/06/15/business/media/15kindle.html. Já tem escritores dando autógrafo no Kindle. Abraço

Diogo disse...

Diogo Rimoli
Excelente, Charles. Ótima visão do blog, das obras ali publicasdas. Sem conotação pejorativa, com um viés interpretativo muito interessante. Ao ler tua narrativa, fiquei com a impressão gostosa da mídia "blog". Uma espécie de limbo literário. Grande Abraço

Luccas Neves Stangler. disse...

A tecnologia não acabou com a doce prazer de folhear um bom livro. Novas engenhocas, velhas manias.
Parabéns pelo texto!

Memória de Elefante disse...

Ótimo texto!Abraço

katine walmrath disse...

discussão pra lá de pertinente. atualíssima, né.
e tua abordagem tão integrada, que não exclui, agrega, acrescenta.
mesmo assim o tema é prato pra crise de identidade. :-)
o blog é quem sabe uma possibilidade de aprender fazendo às vistas de sabe lá quem...
construção colaborativa...
eu uma fã da tua literatura.
parabéns.

Cesar Cruz disse...

Charles,

Acho que escritor é quem escreve regularmente. Mas aí alguém dirá: "Ah, mas se não têm livros publicados e escreve regularmente, deve ser ruim, portanto não pode ser considerado escritor". Será que é isso? Pois bem, o sujeito pode pagar e fazer seu próprio livro! Há centenas de editoras dispostas, com direito à noite de autógrafos e tudo o mais, basta desembolsar de 5 a 15 mil reais. E aí, vale? O cara tem grana e banca, ué! Pode ser péssimo, não pode? Permanece a pergunta: é escritor, este aí?

Eu, por exemplo, escrevo no meu blogue, mas também sou colunista em alguns jornais, revistas e programas de rádio. Sou escritor ou não? Não tenho livro publicado, veja bem!

Acho diferente. Acho que, dos sujeitos que escrevem regularmente, que portanto (na minha opinião) são escritores, há os bons, os medianos, os fraquinhos e os medíocres, como em qualquer ofício ou profissão.

Um advogado muito ruim deixa de ser um advogado? Ou um vendedor que de tão ruim não consegue vender, deixa de ser vendedor?

Abraços, Charles!
Cesar Cruz

Postar um comentário