quarta-feira, 7 de março de 2012

A obra de Charles Kiefer chega ao meio digital

Já estão à venda nas livrarias digitais os livros eletrônicos (eBooks) Escorpião da sexta-feira, Quem faz gemer a terra, Valsa para Bruno Stein e Logo tu repousarás também.

Os eBooks estão no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos nos quais se podem ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs (computadores pessoais). Só não é aceito, por enquanto, no Kindle, que exige o formato Mobi, que é exclusivo da Amazon. (Mas negociações estão em curso e imagina-se que no meio do ano que vem estejam por lá também).

Os livros podem ser comprados através de download nas seguintes livrarias on line:

Saraiva (http://www.livrariasaraiva.com.br)

Cultura (http://www.livrariacultura.com.br)

Curitiba (http://www.livrariascuritiba.com.br)

Copia (Submarino)

(http://submarino.thecopia.com/home/index.html)

Livraria Abril

(www.iba.com.br)

Livraria positivo

(https://livros.mundopositivo.com.br)

Gato Sabido

(http://www.gatosabido.com.br)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Infância é dentro

Infância não existe, infância é uma invenção de adulto.

Quando leio sobre a infância de alguém, sempre me pergunto: E como seria a descrição desse passado idílico se quem a tivesse escrito fosse uma criança?

Talvez, para uma criança, o mar não seja tão belo, a praia não seja tão amigável, a noite não seja tão pacífica...

Adulto, percebo agora que não tive essa infância maravilhosa que todos tiveram. Só fui conhecer o mar aos vinte e dois anos. E o que senti foi uma angústia muito grande, aquela água não tinha fim, aquela areia irritava-me, aquele sol torrava a minha pele, produzindo-me grandes febres e dores, atenuadas por pomadas e insônias.

A infância que tive foi atrás de uma enxada, capinando inço nas lavouras de soja dos meus avôs, catando osso para vender no frigorífico, lavando dúzias de roupas por semana para que minha mãe liberasse, a mim e a minha irmã, as entradas da sessão da tarde de domingo no Cine Imperial, no centro de Três de Maio, que hoje deve ser uma loja de produtos da China.

Que infância poderia eu inventar agora?

Na época, nem me dei conta que fazia trabalho infantil, que eu podia estar na praia, besuntado de óleo. Até por que a praia ficava a mais de 600 quilômetros de distância. Mas havia os banhos de rio e de lagoas, as caçadas, as pescarias.

E havia as noites de lua cheia, de calor e de luciérnagas (a Argentina ficava logo ali), quando contávamos, uns aos outros, eu e meus tios, histórias de assombração.

Aquilo, sim, é que era infância, melhor que filme de Harry Potter!
Aquelas noites, povoadas de mulas sem-cabeça, boitatás, lobisomens e outros seres imaginários que nem Jorge Luis Borges foi capaz de imaginar, são o centro disso que, adulto, chamo de infância.

E essa infância, que construo do presente para o passado, que afeito, que mistifico, que atenuo ou exagero, transforma-me em escritor.

Pois, como disse Marcos Accioly: “As pessoas ou são crianças ou são adultos. Ser menino é outra coisa. Menino não é criança nem adulto e, sendo todas as idades, é sem idade. Por fora se conhece a criança ou o adulto. Menino é dentro.”

Parodiando o poeta pernambucano, posso dizer que “infância é dentro”.

E o que é dentro a gente inventa, amplia, modifica, reconstrói, e apaga.

O que houve de ruim na minha infância eu converto em adubo de minha ficção.
O que houve de bom, eu reconto para a Sofia, que teve a sua infância inventada pelos chineses, como diz a Marta.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Entre Salvador e Porto Alegre

Durante o mês de janeiro, estive em Salvador, dando aulas para doutorandos em Teoria da Literatura da UNEB.

Revisamos as teorias da História da Literatura, estabelecemos métodos para a escritura do ensaio acadêmico, nos divertimos muito com as diferenças culturais entre a Bahia e o Rio Grande do Sul.

No barzinho da Universidade, bebi a cada dia um suco de frutas diferente: cajá, umbu, tamarindo, manga, seriguela, graviola, cacau, jambo e tantos outros.

Agora, esses mesmos alunos e alunas irão a Porto Alegre, para escreverem suas teses de doutorado. O choque cultural, social, intelectual e gastronômico será inevitável. A Bahia é quente em todos os sentidos; o Rio Grande do Sul tem síndrome de inverno. Não é só o clima que enregela no meio do ano, descobrirão os baianos.

Da minha parte, farei o possível para tornar os dias dos meus alunos e alunas no Sul menos áridos. Sem azeite de dendê, acarajé, vatapá e ginga eles precisarão de ternura e carinho. Não sou fã de CTGs, mas vou levá-los a ver a dança da chula e a dança do facão.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Daimon junto à porta vence Açorianos de Contos

Durante seis anos, fustiguei o Nelson Rego, criticando seus contos, pedindo que os refizesse, que os reapresentassse em aula, especialmente do ponto de vista da linguagem, que é onde a vaca da literatura vai pro brejo.

E o Nelson, que é professor da UFRGS e nem por isso é vaidoso ou autocentrado, humildemente aceitou as minhas duras críticas e reescreveu seus contos.

Ontem, foi a vez de o Nelson Rego receber o Prêmio Açorianos de Literatura na Categoria Contos, em cerimônia no Teatro Renascença.

Quando um dos nossos é premiado, todos são premiados. E a melhor homenagem que se pode fazer ao Nelson é ler o seu excelente livro Daimon junto à porta.

Na Palavraria, Vasco da Gama, 165, o livro está à venda.

E se alguém quiser dizer alguma coisa ao Nelson, aí vai o seu e-mail: nelson.rego@ufrgs.br

domingo, 30 de outubro de 2011

Convites para a Feira do Livro de 2011

1. Novíssimos contistas, 05 de novembro, sábado, 16h
Memorial do Rio Grande do Sul, Sala dos Jacarandás
Charles Kiefer debate com 4 novos contistas, Daniela Langer, Ricardo Oliveira Silveira, Nelson Rego, Beto Canales e Eni Algayer, egressos das oficinas literárias, os caminhos da história curta.

2. A poética do conto: De Poe a Borges, um passeio pelo gênero, 05 de novembro, sábado, 17:30h
Memorial do Rio Grande do Sul, Sala dos Jacarandás
Charles Kiefer discute a história do conto moderno, a partir de Nathaniel Hawthorne, Edgar Alan Poe, Julio Cortazar e Jorge Luís Borges.

3. Autógrafos no Pavilhão Central, sábado, 19:30h
Charles Kiefer autografa A poética do conto: de Poe a Borges, um passeio pelo gênero e todos os seus outros 32 livros.

4. Palestras no Estande da Caixa Econômica Federal
Dia 06 de novembro, domingo, e dia 13 de novembro, domingo, às 19h.
Charles Kiefer apresenta à sociedade gaúcha duas pessoas que considera muito importantes na vida social do estado: Bárbara Fyschinger, fundadora e mantenedora da Kinder, instituição sem fins lucrativos que cuida de centenas de crianças com problemas neurológicos, e Roque Jacoby, seu primeiro editor, responsável pelo início de sua trajetória como escritor.

Obs.: Visite o Espaço da RBS na Feira do Livro e assista aos vídeos Ao pé da Estante, com informações sobre escritores gaúchos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Concurso de contos

entre 2010 e 2011, realizei um concurso interno, entre meus alunos de oficinas particulares, com o objetivo de publicarmos uma antologia de contos com as primícias de todas as turmas.

Eis o resultado, sem ordem alfabética e sem ordem de classificação:

Estação Esperança (Sílvia Duncan)
Clausura para dois (Susana Espíndola)
O corvo amarelo (Gladis Berriel)
Altos e Baixos (Fernanda Vier)
Turno da noite (Luiz Volkart)
Melhor voltar para casa (Cláudia Baumgarten)
Catarse (Regina Maria Schneider)
Amora, groselha (Cleonice Bourscheid)
Hora do chá (Gecy Belmonte)
Vestido de seda (Maria Helena Rau)
Anjo (Zélia Lacroix)
Dia de futebol (Guilherme Giugliani)
Homens (Rodrigo Alfonso Figueira)
Quero ser Altair Martins (Reginaldo Pujol Filho)
Horribilis (José Francisco Fyschinger)
O assessor (Guilherme Castro)
O stripper (Mariano Mendonça Neto)
Gonçalves (Guilherme Bicca)
Cento e vinte (Juarez Guedes Cruz)
Calma, já vai passar (Augusto Britto)
Deseja excluir? (Leila Teixeira)
Cecília (Monique Revillion)
Não fui eu (Marisa Trindade)
A carta (Ângela Ramis)
Grupo cinco (Luciano Médici Antunes)

domingo, 26 de junho de 2011

O sangue e o plasma da significação

Uma das minhas tentativas mais persistentes e mais difíceis é a de ensinar aos meus alunos de nível avançado, àqueles que permanecem comigo por lustros e décadas (tenho alunos que frequentam as minhas oficinas há mais de 15 anos), que os símbolos e as alegorias são o sangue e o plasma da significação. Quem lê somente os signos linguísticos não lê nada. E, às vezes, deslê.

Um bom espaço para se treinar esse olhar decodificador, olhar capaz de ler à contraluz, é a mídia impressa.

Tomemos um caso, a saber, no Jornal O Sul, edição de 25 de junho de 2011.

À página 8 do Caderno Reportagem, vemos uma foto linda, em que Tony Blair sorri para o filho Leo, que está em seu colo. O texto conta uma história estranha.

Na festa de aniversário de 11 anos, o menino teria cobrado 11,3 euros de cada coleguinha pela participação na festa.

Um menino multimilionário, que recebe os colegas e amigos na mansão da família, cujo pai cobra fortunas por consultorias, precisa cobrar 11,3 euros? E por que esse preciosismo? Por que não 10 euros, para facilitar o troco? Ou 12?

Jornalistas ingênuos, e leitores comuns, de poucas luzes, como os chamo, que não conhecem a linguagem simbólica dos muitos esoterismos, atêm-se à curiosidade do episódio, ao insólito da festa, e perdem o essencial, enrodilhado não no plot, mas na equação numérica da cobrança. Papai Blair, que é membro de conhecida sociedade secreta, declara, através do filho, o seu grau de importância: 11 x 3 = 33. Grau 33, se alguém ainda tinha dúvidas. E como toda ação esotérica precisa ser dupla, Blair manda um recado aos seus pares, através da "insólita" festinha do rebento: 11 e 3.

Página 11, parágrafo 3? 11 horas e 30 minutos? Latitude 11 e longitude 3? Artigo 11 e inciso 3?

Quem sabe, sabe. Quem tem a chave, decifra. Não foi sempre assim, decifra-me ou te devoro? Quem não sabe é boi de piranha, massa de manobra, inocente últi.

Se o persongaem e o enredo são a matéria de uma história, o símbolo e a alegoria são a sua energia. Sempre é bom lembrar que energia é matéria acelerada à velocidade da luz ao quadrado. Quem não compreende essa simples equação da teoria da relatividade, cai no truísmo de imaginar que não existam temas significativos.

Uma história só será significativa se funcionar como funcionam as mensagens esotéricas: para os tolos e ingênuos, 11,3 euros são só o preço do ingresso na festinha. No outro nível, lá onde a verdadeira significação se constitui, 11,3 euros são uma sofisticada, simbólica e irônica mensagem.

O bom escritor, como o bom esotérico, escreve para os dois grupos de leitores.