sábado, 24 de outubro de 2026

Fragmento de Suor no Rosto, memórias

 


Eu tinha uns 14 anos quando sofri o maior choque ideológico da minha vida. E hoje percebo que foi exatamente aquele choque que me levou a estudar sociologia, política, economia, literatura, filosofia.

 

Sentados embaixo do velho eucalipto, numa tarde de verão escaldante, eu conversava com meu avô Bernardo Augusto Kiefer e resolvi trazer à nossa conversa um assunto que estava começando a me interessar, o nazismo.

 

Ex abrupto, perguntei ao meu avô o que ele pensava do Hitler. Para minha surpresa, ele disse: “Foi um homem bom”. Confesso que não argumentei, confesso que me calei. O impacto foi tremendo, foi paralisador, foi assombroso. Passaram-se pela minha consciência as cenas horripilantes dos campos de concentração, as chaminés dos fornos crematórios, as multidões de alemães enlouquecidas saudando o ditador, as bandeiras com a suástica, as cidades destruídas.

 

Naquele instante, eu compreendi que ser uma pessoa boa, honesta, trabalhadora, ser uma pessoa religiosa, que frequenta o culto, a missa, a sinagoga, a mesquita, não a imuniza contra o verdadeiro mal. O mal é sutil, o mal sabe argumentar, e o mal troca de cor com facilidade, o mal sabe conquistar terreno com paciência. Como disse Humberto Eco, o fascismo, no século XX, se apresentou como fascismo, mas no século XXI se apresentará como liberdade. Todos os atuais líderes fascistas se apresentam como paladinos da liberdade. E eles sempre são anti-alguma-coisa. Usam um boné com o slogan de Mussolini, empunham um pedestal de microfone como metralhadora, usam uma motosserra como símbolo de cortes sociais.

 

Convivi com meu avô por mais uns 40 anos, e nunca mais conversei com ele sobre política. Se não nos unissem laços de sangue, eu jamais voltaria a sentar-me com ele em qualquer lugar. Hoje, metade dos brasileiros considera o fascismo uma coisa boa. Dentro de um lustro, esses brasileiros bons, honestos e trabalhadores, vagarão pelas ruas como zumbis, farão fila na fila do osso, morrerão de doenças que estavam debeladas, perderão seus benefícios sociais, mas sua ideologia permanecerá intacta, aguardando por um novo Messias.

 

domingo, 18 de outubro de 2026

  

Leveza na Literatura: um estilo mais que necessário

 

Ítalo Calvino, em Seis propostas para um novo milênio (1991), afirma ter se esforçado para “retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem”.  Desde os formalistas russos, que elaboraram suas ideias entre 1917 e 1923, sabemos que existem dois eixos bem demarcados num texto ficcional, e que eu reutilizei em A poética do conto, de Poe a Borges: um passeio pelo gênero (2011), a saber:

a)     Eixo dos procedimentos construtivos;

b)    Eixo dos meios expressivos.

Ou, nos termos propostos por Calvino, estrutura narrativa e linguagem.

Um escritor, diante do pesadume (que palavra pesada), da inércia e da opacidade do mundo que aderem a sua escrita, precisa de um “estilo ágil, impetuoso e cortante”, segundo o pai do Visconde partido ao meio.

No que consistiria, então, esse estilo leve?

Ao observarmos o mundo e a história, em todos os seus aspectos, observamos uma constante e teleonômica espiritualização de tudo. Para não ser acusado de religioso ou crente, defino aqui o que entendo por espiritualização.

Do latim spiritus, significa respiração ou sopro. Pode significar, também, coragem e vigor. No idioma-raiz, vem do verbo pie, peis, soprar. Em grego, pneuma; em hebraico, ruach.

Ou seja, espiritualizar o mundo significa torná-lo crescentemente mais leve, pela injeção de ar na matéria. Tomemos o exemplo do suflê, do chocolate ou do sorvete. Para torná-los mais leves e delicados, basta infundir-lhes moléculas de ar, basta soprar neles o espírito da respiração (sintagma que, no limite, é uma redundância).

Como insuflar leveza num estilo literário?

“Leveza é algo que se cria no processo de escrever”, afirma o italiano. Se o texto de ficção tem dois eixos, a leveza deve ser conquistada nos dois campos, obviamente. Teríamos, então, uma leveza de pensamento, de conteúdo, e uma leveza de linguagem. Como em tudo, “não podemos admirar a leveza da linguagem se não soubermos admirar igualmente a linguagem dotada de peso”.

Como leveza de pensamento é uma questão de ideologia, vou ater-me a pensar a leveza de linguagem, a leveza de estilo, a leveza do jeito de escrever. Como esse texto será veiculado na internet, trato de torná-lo “minúsculo, móvel e leve”. Por aí já se vê, que o conceito de leveza tem outras condicionantes, que ultrapassam as questões literárias e linguísticas.

Elenco, assim, 10 sugestões aos novos escritores:

1)    Paradoxalmente, adjetivos concretos tornam a linguagem mais leve e adjetivos abstratos tornam-na mais pesada (ideologia tem peso);

2)    Advérbios de intensidade dão pesadume ao texto;

3)    A palavra mais pesada do idioma português é internacionalissimamente. Palavras longas são mais pesadas que as breves;

4)    Ficção tem narração e discurso. O discurso torna o texto pesado; a narração o espiritualiza;

5)    Gerundismo torna o texto pesadíssimo;

6)    Orações esperpênticas e excesso de orações coordenadas sindéticas e assindéticas são ideais para adquirir-se um estilo de chumbo;

7)    Enfileiramento de adjetivos, às duplas e às trincas, sobrecarregam o estilo;

8)    Redundâncias e pleonasmos são as estrelas-anãs da linguagem;

9)    Descrições detalhadas, pomposas e inúteis matam a leveza de um estilo;

10)           Reticências e exclamações poluem visualmente um texto, mas também o sobrecarregam com a ganga da linguagem.

 


 

 

domingo, 10 de agosto de 2025


No caminho, com Eduardo Alves da Costa

(Charles Kiefer)



No primeiro dia, eles acamparam na frente dos quartéis

e pediram intervenção militar, 

cantaram e bateram continência para pneus,

enviaram mensagens luminosas de celular para os ETs

e não dizemos nada.


No segundo dia, eles invadiram a Praça dos Três Poderes,

quebraram portas e vidraças, invadiram prédios,

destruíram obras de arte, móveis e a Constituição,

enrolados na Bandeira Nacional,

repitindo o refrão: Deus, pátria, família e liberdade

e não dizemos nada.


No terceiro dia, eles se amotinaram, ocuparam as cadeiras da 

Diretoria do Legislativo, colaram esparadrapos na boca

e facismo na alma

e não dizemos nada.


Até que um dia, o traidor da pátria, 

que fugiu para conspirar,

retornou com a United States Cavalry

para dizimar os apolíticos apáticos que nos tornamos.

E já não podemos dizer nada.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


Era do Entendimento

O Livro do Zohar, o Livro do Esplendor, que esteve oculto por tantos séculos, livro de cabeceira de Isaac Newton, e tantos outros sábios da humanidade, afirmou, em 193 DC, que no Midat HaDin, na Era do Juízo, na Era do Entendimento, a Chochmá Nistará (Sabedoria Secreta) devia ser revelada a todos. E afirmou mais, afirmou que nesse "tempo futuro", no qual nos encontramos, "políticos e professores" não mais seriam necessários, e que a Terra se encheria de Conhecimento.

Tu conheces as tuas raízes? Tu te orgulhas de ser árabe, judeu, palestino, alemão, inglês, brasileiro, norte-americano, argentino ou uruguaio?

Já viste esse vídeo (link abaixo) sobre a Viagem do DNA?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017


O eclipse do Ser
em Sagitário
agita a casa
da linguagem
onde habito,

e onde me habita
a Árvore da Vida:
o vermelho da guevurá
ou do cachecol?

E o sol se eclipsa,
e a clepsidra pára
ao meio dia.

Hora do sexo
ou da comida?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A poesia é jazente
do ser nascente?

É poente?
Lua no mar?

Estrela cadente
onde o Universo

pensa e sente?

A poesia é juzante,
tombadilho e proa

em que alma voa
à fonte?


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Caímos um, mas subimos dois


Tenho uma amiga muito querida, querida por mim, pela Sofia e pela Marta. Ela freqüenta a nossa casa. Às vezes, dorme aqui. E almoça. E janta. Chama-se Maria Clara Lisboa. Ela e a Sofia são primas. Marta, minha esposa, e Nei Lisboa, pai da Maria Clara, são primos. Só eu, nessa história, não sou parente. Por isso, chamo a Maria Clara de amiga.
No ano passado, durante uma janta, ouvi a Maria Clara dizer que era vegetariana. Fiquei impressionado. E admirado, pois eu próprio já tentei ser vegetariano e não consegui resistir aos apelos cheirosos e suculentos das costelas e picanhas assadas no espeto.

Fiquei torcendo pela minha amiga, tomara que ela consiga, tomara que ela consiga resistir, tomara que ela seja mais resistente às tentações da carne do que eu.
Dias atrás, quando a Maria Clara veio aqui em casa, me disse:

“Charles, não consegui resistir. Comi um bauru na praia”.
Bem, valeu a tentativa, não valeu?

Importante, Maria Clara, é que a gente se sinta bem. Eu, por exemplo, não me sinto bem comendo carne todos os dias. Aliás, se eu comer carne todos os dias durmo mal, fico pesado, sonolento, fico – ai que palavrão – constipado!
A história da Maria Clara me levou a procurar, na minha biblioteca, afirmações de escritores e filósofos sobre o ato de comer carne. Encontrei algumas pérolas, que divido aqui com a minha amiga, com a Sofia, com a Marta, com o Nei e com a Rosane, mãe de Maria Clara, e com todos aqueles que, como nós, tentam diminuir o consumo de carne, ou querem parar de vez...

Pitágoras, o grande Pitágoras, aquele que estudou com os cabalistas da Mesopotâmia, e que aprendeu com eles muitas noções que expressou em 12 tópicos, disse:
“A carne é o alimento de certos animais. No entanto, nem todos os animais comem carne. Os cavalos, os bois e os elefantes se alimentam de ervas. Só os que tem índole violenta e feroz como os tigres e os leões podem saciar-se com sangue. Que horror é engordar um corpo com outro corpo, viver da morte dos seres vivos.”

(Só para que vocês não fiquem curiosos sobre os 12 tópicos que Pitágoras retirou da kabbalah, ei-los:
1.     Educai as crianças e não será preciso punir os homens.
2.     Não é livre quem não obteve domínio sobre si.
3.     Pensem o que quiserem de ti; faz aquilo que te parece justo.
4.     O que fala semeia; o que escuta recolhe.
5.     Ajuda teus semelhantes a levantar a carga, mas não a carregues.
6.     Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem.
7.     Todas as coisas são números.
8.     A melhor maneira que o homem dispõe para se aperfeiçoar é aproximar-se de Deus.
9.     A Evolução é a Lei da Vida, o Número é a Lei do Universo, a Unidade é a Lei de Deus.
10.  A vida é como uma sala de espetáculos: entra-se, vê-se e sai-se.
11.  A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos.
12.  Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las.)

Sidharta Gautama, o Buda, disse:
“Feliz seria a Terra se todos os seres se mantivessem unidos pelos laços de benevolência e só se alimentassem de alimentos sem derramento de sangue. Os dourados grãos, os reluzentes frutos e as saborosas ervas que nascem para todos bastariam para alimentar e dar fartura ao mundo”.

Leonardo da Vinci, o inventor italiano, disse:
“Virá uma época em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassinato de um ser humano”.

Leon Tolstói, o romancista russo, disse:
"O comer carne é a sobrevivência da maior brutalidade. A mudança para o vegetarianismo é a primeira consequência natural da Iluminação”.

 
Maria Clara, já que falei em kabbalah, tenho outra coisa para te dizer. Segundo a Sabedoria Antiga, sempre que a gente tenta de novo depois de falhar em algum propósito, avança dois degraus escada acima, de tal forma que se descer outra vez, teremos subido um degrau. Na verdade, caímos um degrau, mas subimos dois.