domingo, 18 de outubro de 2026

  

Leveza na Literatura: um estilo mais que necessário

 

Ítalo Calvino, em Seis propostas para um novo milênio (1991), afirma ter se esforçado para “retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem”.  Desde os formalistas russos, que elaboraram suas ideias entre 1917 e 1923, sabemos que existem dois eixos bem demarcados num texto ficcional, e que eu reutilizei em A poética do conto, de Poe a Borges: um passeio pelo gênero (2011), a saber:

a)     Eixo dos procedimentos construtivos;

b)    Eixo dos meios expressivos.

Ou, nos termos propostos por Calvino, estrutura narrativa e linguagem.

Um escritor, diante do pesadume (que palavra pesada), da inércia e da opacidade do mundo que aderem a sua escrita, precisa de um “estilo ágil, impetuoso e cortante”, segundo o pai do Visconde partido ao meio.

No que consistiria, então, esse estilo leve?

Ao observarmos o mundo e a história, em todos os seus aspectos, observamos uma constante e teleonômica espiritualização de tudo. Para não ser acusado de religioso ou crente, defino aqui o que entendo por espiritualização.

Do latim spiritus, significa respiração ou sopro. Pode significar, também, coragem e vigor. No idioma-raiz, vem do verbo pie, peis, soprar. Em grego, pneuma; em hebraico, ruach.

Ou seja, espiritualizar o mundo significa torná-lo crescentemente mais leve, pela injeção de ar na matéria. Tomemos o exemplo do suflê, do chocolate ou do sorvete. Para torná-los mais leves e delicados, basta infundir-lhes moléculas de ar, basta soprar neles o espírito da respiração (sintagma que, no limite, é uma redundância).

Como insuflar leveza num estilo literário?

“Leveza é algo que se cria no processo de escrever”, afirma o italiano. Se o texto de ficção tem dois eixos, a leveza deve ser conquistada nos dois campos, obviamente. Teríamos, então, uma leveza de pensamento, de conteúdo, e uma leveza de linguagem. Como em tudo, “não podemos admirar a leveza da linguagem se não soubermos admirar igualmente a linguagem dotada de peso”.

Como leveza de pensamento é uma questão de ideologia, vou ater-me a pensar a leveza de linguagem, a leveza de estilo, a leveza do jeito de escrever. Como esse texto será veiculado na internet, trato de torná-lo “minúsculo, móvel e leve”. Por aí já se vê, que o conceito de leveza tem outras condicionantes, que ultrapassam as questões literárias e linguísticas.

Elenco, assim, 10 sugestões aos novos escritores:

1)    Paradoxalmente, adjetivos concretos tornam a linguagem mais leve e adjetivos abstratos tornam-na mais pesada (ideologia tem peso);

2)    Advérbios de intensidade dão pesadume ao texto;

3)    A palavra mais pesada do idioma português é internacionalissimamente. Palavras longas são mais pesadas que as breves;

4)    Ficção tem narração e discurso. O discurso torna o texto pesado; a narração o espiritualiza;

5)    Gerundismo torna o texto pesadíssimo;

6)    Orações esperpênticas e excesso de orações coordenadas sindéticas e assindéticas são ideais para adquirir-se um estilo de chumbo;

7)    Enfileiramento de adjetivos, às duplas e às trincas, sobrecarregam o estilo;

8)    Redundâncias e pleonasmos são as estrelas-anãs da linguagem;

9)    Descrições detalhadas, pomposas e inúteis matam a leveza de um estilo;

10)           Reticências e exclamações poluem visualmente um texto, mas também o sobrecarregam com a ganga da linguagem.