Leveza na Literatura: um estilo mais que necessário
Ítalo Calvino, em Seis propostas para um novo milênio (1991),
afirma ter se esforçado para “retirar peso à estrutura da narrativa e à
linguagem”. Desde os formalistas russos,
que elaboraram suas ideias entre 1917 e 1923, sabemos que existem dois eixos
bem demarcados num texto ficcional, e que eu reutilizei em A poética do conto, de Poe a Borges: um passeio pelo gênero (2011), a saber:
a) Eixo dos procedimentos construtivos;
b) Eixo dos meios expressivos.
Ou, nos termos propostos por Calvino,
estrutura narrativa e linguagem.
Um escritor, diante do pesadume (que palavra pesada), da
inércia e da opacidade do mundo que aderem a sua escrita, precisa de um “estilo
ágil, impetuoso e cortante”, segundo o pai do Visconde partido ao meio.
No que consistiria, então, esse estilo leve?
Ao observarmos o mundo e a história,
em todos os seus aspectos, observamos uma constante e teleonômica espiritualização de tudo. Para não ser acusado
de religioso ou crente, defino aqui o que entendo por espiritualização.
Do latim spiritus, significa respiração
ou sopro. Pode significar, também, coragem e vigor. No idioma-raiz, vem do verbo pie, peis, soprar. Em
grego, pneuma; em hebraico, ruach.
Ou seja, espiritualizar o mundo significa torná-lo crescentemente mais leve,
pela injeção de ar na matéria. Tomemos
o exemplo do suflê, do chocolate ou do sorvete. Para torná-los mais leves e
delicados, basta infundir-lhes moléculas de ar, basta soprar neles o espírito
da respiração (sintagma que, no limite, é uma redundância).
Como insuflar leveza num estilo literário?
“Leveza é algo que se cria no processo
de escrever”, afirma o italiano. Se o texto de ficção tem dois eixos, a leveza
deve ser conquistada nos dois campos, obviamente. Teríamos, então, uma leveza
de pensamento, de conteúdo, e uma leveza de linguagem. Como em tudo, “não
podemos admirar a leveza da linguagem se não soubermos admirar igualmente a
linguagem dotada de peso”.
Como leveza de pensamento é uma
questão de ideologia, vou ater-me a pensar a leveza de linguagem, a leveza de
estilo, a leveza do jeito de escrever. Como esse texto será veiculado na internet, trato de torná-lo “minúsculo, móvel e leve”. Por aí já se vê, que o
conceito de leveza tem outras condicionantes, que ultrapassam as questões
literárias e linguísticas.
Elenco, assim, 10 sugestões aos novos
escritores:
1) Paradoxalmente, adjetivos concretos
tornam a linguagem mais leve e adjetivos abstratos tornam-na mais pesada
(ideologia tem peso);
2) Advérbios de intensidade dão pesadume ao texto;
3) A palavra mais pesada do idioma
português é internacionalissimamente. Palavras longas são mais pesadas que as
breves;
4) Ficção tem narração e discurso. O
discurso torna o texto pesado; a narração o espiritualiza;
5) Gerundismo torna o texto pesadíssimo;
6) Orações esperpênticas e excesso de
orações coordenadas sindéticas e assindéticas são ideais para adquirir-se um estilo de chumbo;
7) Enfileiramento de adjetivos, às
duplas e às trincas, sobrecarregam o estilo;
8) Redundâncias e pleonasmos são as
estrelas-anãs da linguagem;
9) Descrições detalhadas, pomposas e
inúteis matam a leveza de um estilo;
10)
Reticências
e exclamações poluem visualmente um texto, mas também o sobrecarregam com a
ganga da linguagem.