domingo, 11 de julho de 2010

As dores e a dor

Este texto encontra-se agora na obra Para ser escritor, editado por Leya, 2010.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A arara vermelha

Entre as muitas teses que tenho a respeito do conto e de seu processo de composição, há uma que se consolidada cada vez mais.

Um conto deve ser pensado longamente, mas escrito rapidamente.

Não importa o tempo que se leve, depois, a retocá-lo, a reescrevê-lo.

Durante 32 anos (isto mesmo, trinta e dois anos) acalentei a idéia de um conto. E hoje, depois de três décadas a observá-lo, a pensá-lo, arranquei-o de mim. Chama-se A arara vermelha.

Escrever contos é como pintar paredes. Se interrompemos a pintura, para continuá-la num outro dia, ao retomá-la, restarão as marcas das junções. A tinta seca e a tinta molhada não se acertam.

Um conto é um meteorito. É preciso que viaje longamente pelo espaço do imaginário, para incendiar-se, subitamente, ao entrar em contato com a nossa atmosfera.

E esta sensação é impagável: fazer um bom conto, e que agrade, em primeiro lugar, ao exigente leitor que temos dentro de nós. Não venderá nada, não será lido por ninguém, mas não importa.

Toda beleza é inútil. E é bom que seja. É a nossa última trincheira, nesse mundo em que tudo vira mercadoria.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A questão da "verdade" em literatura

Ficção e Realidade

Ao analisar as relações que se estabelecem entre ficção e realidade, Tzvetan Todorov recorda inicialmente uma afirmação de Paul Valéry, que se poderia chamar de a questão do efeito de verdade. Para o poeta francês, quando contemplamos um retrato de personagem antigo, inclinamo-nos a tomá-lo por verdadeiro, ainda que não se tenha nenhum meio de comprovação de sua veracidade. O mesmo se estenderia aos livros, já que os leitores não dispõem de mecanismos para distinguir entre livros de “testemunhos verdadeiros” dos de “testemunhos imaginários”. Estabelecer se os autores são inventores ou repórteres ficaria a critério do leitor. Todorov, brilhantemente, desnuda o que a proposição de Valéry esconde: o problema não está em declarar se estes ou aqueles são mais ou menos verdadeiros, mas em perceber o efeito de verdade, a verossimilhança, o efeito de realidade que cada texto instaura.

No entanto, Valéry pensava nos efeitos sobre o leitor e não na veracidade ou não da história. Alguns, ignorando esse detalhe, tomam a árvore pela floresta: acreditam que não existam fatos mas somente interpretações dos mesmos. Idéia que tem origem em Nietzsche, e que propõe uma perigosa generalização: além de inexistirem fatos, existem somente discursos sobre fatos. Conseqüentemente, não há verdade do mundo, mas somente interpretação do mundo.

Todorov lembra que não há nenhuma novidade na querela. Platão já provara que nos tribunais a eloqüência – e a conseqüente adesão dos juízes ao orador – era mais importante do que a verdade. Platão apenas opõe-se aos autores modernos, no sentido de recusar-se ao elogio do poeta e de seus “testemunhos imaginários”.

Além dessa primeira interpretação a respeito das relações entre ficção e história, o mundo moderno conhece outra: a de dizer que a ficção é mais verdadeira que a história. O que Todorov considera uma inversão de hierarquia e uma radicalização.

Como exemplos dessa inversão, Todorov cita Marc Augé, que elogia uma obra de etnologia francesa, por ser “tão patente de verdade como um romance de Balzac”. Augé, retomando as idéias de Aristóteles, elogia a verdade do romancista, que “não tem a superstição da palavra verdadeira”, e que assim pode ascender a uma verdade superior, acima e além dos meros detalhes históricos. Com ironia, Todorov recomenda que historiadores e etnólogos ingressem, pois, na carreira de romancistas.

Prosseguindo em sua exposição da inversão de hierarquia, Todorov traz o exemplo de Stendhal, para quem o romance era um meio mais filosófico que a história, mais concreto que a filosofia. Também para Stendhal, a questão não era de eloqüência ou de eficácia, mas de verdade. O que remete novamente à Aristóteles, para quem a poesia é mais nobre e mais filosófica que a história. Mas não mais verdadeira, acrescenta Todorov.

Depois de expor as duas teorias:

1) os fatos não existem, não passam de interpretações;

2) os fatos existem, mas são menos importantes que as suas interpretações;


Todorov propõe que desçamos do admirável mundo das idéias e mergulhemos na “humilde realidade da vida cotidiana”. Indaga-nos ele se, sentados num banco de réus por um crime não cometido, aceitaríamos como princípio apriorístico que ficção e verdade sejam equivalentes ou que a ficção seja mais verdadeira que a história? Diante de alguém que negasse o genocídio nazista, aceitaríamos que o debate não tem sentido, já que tudo não passa de interpretações? Ou alguém que, como ele, lesse nas paredes de um edifício “Os imigrantes são ocupantes nazistas sem uniforme”, se contentaria em analisar a estrutura da metáfora ou em emitir um juízo moral sobre os valores sugeridos pelo tema? Alguém, diante disso, não procuraria saber se a afirmação é verdadeira ou falsa? Como lidaríamos com o paradoxo de aceitar a distinção entre ficção e realidade na vida prática e negá-la na teoria?

E como fica o estatuto da verdade ficcional? Estavam enganados os autores do passado que acreditavam que a poesia pudesse dizer a verdade? Estávamos enganados ao sentir a verdade humana dos versos de Baudelaire e dos romances de Balzac? Vamos perseguir os poetas, já que não dizem a verdade? indaga-se Todorov.

O problema todo está na noção de verdade. Não se pode confundir a verdade-adequação com a verdade-revelação. A primeira é tudo ou nada, ou algo é verdadeiro ou é falso. Já quanto a segunda, a questão é de graduação: algo é mais ou menos verdadeiro, mais ou menos falso. João matou Pedro é algo verdadeiro ou falso, independentemente das circunstâncias atenuantes. O mesmo quanto ao fato de se saber se os judeus saíram dos fornos de Auschwitz em forma de fumaça ou não. No entanto, se a questão remontar às causas do nazismo, as respostas somente podem conter mais ou menos verdade, pois se propõem a revelar a natureza do fenômeno e não em estabelecer fatos. Para Todorov, o romancista aspira a essa segunda categoria de verdade e não tem nenhuma lição a dar ao historiador quanto a primeira.

A distinção das categorias de verdade não resolve completamente o problema das relações entre ficção e história, pois nenhum historiador se atém exclusivamente aos fatos nem pode contentar-se com eles. Fatos são fatos, mas não são convincentes por si sós. O que obriga o historiador a tentar a interpretação, deslizando inevitavelmente para a segunda categoria, a da verdade-revelação. Um único termo, verdade, para tratar de coisas distintas, não é o gerador das confusões? Ao dizer que Balzac é mais verdadeiro que os historiadores não estamos colocando em jogo critérios distintos da outra verdade, distintos e necessariamente superiores? Critérios, afinal de contas, meramente morais. Se a verdade se submete à moral (ao juízo), se não há mais do que verdades pragmáticas, que tribunal julgará o que é mais verdadeiro ou mais filosófico que a verdade? O filósofo-rei? A maioria dos cidadãos? Onde isso vai dar, todos sabemos...

Na segunda parte de seu ensaio, Todorov conta duas histórias, com a intenção de comprovar suas conclusões e de matizá-las. Vamos sintetizá-las.

Em 1704, aparece em Londres uma obra sobre a ilha de Formosa. Nela se narra como os japoneses invadiram a ilha e como os formosenses sacrificavam 18 mil meninos menores de 9 anos por ano. Descreve os sacerdotes, o povo, o ritual, enfim.

O segundo tema do mesmo livro, narra a história de George Psalmanazar, nativo de Formosa, onde viveu até os dezenove anos, educado por um preceptor europeu. Um dia, o preceptor volta à Europa levando o jovem consigo. Lá, Psalmanazar descobre que se encontra em meio a jesuítas e que seu educador é um deles. Exigem sua conversão, ameaçam-no com a Inquisição, mas o rapaz foge. Nos Países Baixos, encontra-se com o exército inglês e acaba conhecendo um capelão escocês anglicano. Depois, vai a Londres, onde é recebido pelo bispo, que lhe dá proteção. Sob a tutela do bispo, Psalmanazar escreve seu livro.

O livro vira um sucesso e Psalmanazar se torna famoso e requisitado pela sociedade inglesa. A própria Royal Society o convida a uma reunião ordinária, no dia 2 de fevereiro de 1704. Cientistas expõem casos interessantes e chega enfim a vez de Psalmanazar falar. Os cientistas desejam indagar-lhe algumas coisas. O doutor Halley, descobridor do famoso cometa, pergunta-lhe, maldosamente, qual era a duração do crepúsculo em Formosa. Diante da resposta errada, Halley declara-o impostor. O jesuíta Jean de Fontanay, que conhecia a China, afirma que Formosa não pertencia ao Japão. Além disso, o religioso nunca ouviu falar que lá se fizessem sacrifícios humanos, e sequer consegue compreender a língua formosense utilizada por Psalmanazar.

Arma-se um grande qüiproquó. Psalmanazar escreve um prólogo, defendendo-se; apresentam-se outros viajantes, descrevendo outras inverdades sobre Formosa. Objetado sobre a impossibilidade da ilha de repovoar-se com o sacrifício anual de 18 mil meninos, ele explica que por isso mesmo a poligamia era permitida lá. As considerações de verossimilhança não detém a verdade. Suprimisse ou modificasse o seu relato como quisesse e mesmo assim Psalmanazar não poderia afirmar com certeza se era originário da ilha ou não e se seu relato era ou não verdadeiro.

Outro argumento é perguntar: “De que ângulo se conta?” ou “Qual o interesse de quem conta?” Assim, na Inglaterra, os livre-pensadores acataram a posição de Halley porque ele era um livre-pensador. Os que eram contra o cientista, acataram a versão de Psalmanazar. Os jornais se apoderaram da questão, também divididos. Psalmanazar foi colocado à prova: chegou a comer pedaços de carne humana. Mas ao invés de convencer, produziu horror e mais dúvidas. O conjunto dos desconfiados é já maior do que o dos crédulos.

Passam-se muitos anos e se começa a esquecer Psalmanazar e suas aventuras. Idoso, vivendo modestamente, tornando-se cada vez mais religioso, a história de sua juventude começa a pesar-lhe na consciência. Em 1747 (aos sessenta e oito anos), escreve um artigo anônimo sobre Formosa para uma enciclopédia geográfica. Afirma nele que Psalmanazar o havia autorizado a revelar que seu relato fora, em sua maior parte, fictício. Todorov observa que o reconhecimento da ficção exige nova ficção, a da diferença entre Psalmanazar e o autor do artigo. Depois, Psalmanazar escreve suas Memórias, terminadas em 1758 e publicadas em 1764, um ano depois de sua morte. Os historiadores posteriores também acrescentaram alguns detalhes sobre o caso.

Nas Memórias, Psalmanazar conta muitas coisas e esconde outras (apesar da religiosidade crescente). Como ele não disse seu verdadeiro nome nem onde nasceu, alguns o consideram gascão (porque os gascões eram tidos por mentirosos), outros judeu (por que era um homem andarilho?). Não parece japonês e fala qualquer língua. Seu primeiro livro fora escrito em latim. A verdade histórica parece ser a seguinte: Vive com sua mãe, na juventude, no sul da França e estuda num colégio jesuíta. Um dia, sua mãe o manda a casa de seu pai, que mora na Alemanha. O pai não quer nada com o rapaz e ele vai para a Holanda. No caminho, encontra uns religiosos e se faz passar por japonês convertido ao cristianismo. Acha divertida a história e inventa uma gramática, um calendário e uma religião. Adota o nome Psalmanazar a partir da Bíblia, de Salmanazar.

Ao chegar à Holanda, nova aventura: apresenta-se como pagão e adorador da lua, mas que se converteria se conseguisse proteção. Então encontra o capelão, que percebe tudo, mas que resolve tirar proveito da situação. O capelão escreve ao bispo e batiza Psalmanazar. Resultado: o capelão sobe de posto e o bispo traz Psalmanazar para Londres. Resta ao jovem escrever o livro, para confirmar suas afirmações. Recorda-se então do jesuíta Alejandro de Rodas, que vivera em Macau e tivera um auxiliar chinês, que depois virou jesuíta também. Da história de Alejandro, Psalmanazar retira muitos elementos, inclusive o nome para o seu preceptor. O mais são recordações de outros livros.

Hoje se sabe com certeza que a Descrição da ilha de Formosa é uma grande fraude, que Psalmanazar nunca esteve na China e que não se chamava Psalmanazar.

Diante disso, Todorov indaga se as descrições dos sistemas fonológicos, dos ritos observados e relatados por etnólogos podem ser situados com tanta segurança ao lado da linha que separa os testemunhos verdadeiros dos testemunhos imaginários.

Ironicamente, Todorov sugere que os leitores procurem na Biblioteca Nacional a história de Psalmanazar, pois ele próprio pode ter inventado tudo isso, a exemplo do que Borges fazia.

Todorov conclui afirmando que a descrição de Formosa nem possui verdade-de-adequação nem verdade-de-revelação. Mas, como ela não se apresenta como ficção, mas como verdade, não é ficção mas mentira e impostura. O que fizeram Halley e Jean de Fontenay não foi um interpretação, um discurso, para confrontar a interpretação e o discurso de Psalmanazar. Eles apenas dizem a verdade onde o outro mente. Para conhecer Formosa, afirma Todorov, é preciso fazer a distinção entre as duas coisas.

Como escrito histórico, a Descrição é uma falsificação. Como ficção, não extrai admiração porque não se apresenta como tal e porque seu autor não é extraordinariamente eloqüente. Mas, pergunta Todorov, e se fosse?

* * *

Cristóvão Colombo descobriu a América. Eis uma frase que todo menino conhece. No entanto, está cheia de ficções, afirma Todorov, ao passar a relatar a segunda história. A frase é eurocêntrica. Abandonada essa perspectiva, seria preciso dizer que a América foi invadida. Além disso, Colombo não foi o primeiro a atravessar o Atlântico. Mas o paradoxo sobre o qual Todorov irá se debruçar é o fato da América chamar-se assim, e não Colômbia. Para isso, há uma resposta histórica simples: em 1507 foi publicado um tratado geográfico, Cosmographie Introductio, em que se julga que os méritos de Américo Vespúcio teriam sido maiores que os de Colombo e portanto o continente merecia ter seu nome. Espanha e Portugal não aceitaram tão facilmente a proposta e continuaram chamando as novas terras de Índias Ocidentais até o século XVIII. A verdadeira questão, no entanto, é: Por que os letrados de Saint-Dié, responsáveis pela cosmografia citada, julgaram a contribuição de Américo mais importante?

Por que Américo foi o primeiro a tocar terra firme? A prova dessa façanha de 1497 é uma carta. E embora a carta seja verdadeira, Américo não foi o comandante da expedição e o mérito seria dele, como normalmente acontece. Além disso, não fora ele o primeiro a alcançar o continente. Juan Cabot (Giovanni Caboto) antecipou-se a ele. Por outro lado, devemos pensar no que os navegantes acreditavam ter feito e não no que fizeram. Imaginavam estar nas Índias. E por último, para Todorov, não é a anterioridade da viagem o que determina a homenagem do nome do continente.

Outra resposta se impõem: Américo fez o descobrimento intelectual do continente. As suas cartas de 1503 e 1506 afirmam e confirmam a consciência de ter encontrado um novo continente. O essencial é que compreendeu. Isto poderia ter feito teoricamente em casa, sem viajar.

Mas no plano intelectual do descobrimento, Américo foi antecipado por Pierre Martyr d’Anghiera, que sem sair de casa, dirigia cartas abertas onde resumia as notícias das viagens, já em 1493. Para ele, Colombo “descobriu essa terra desconhecida” e “encontrou todos os indícios de um continente até então ignorado”. Um ano depois, em carta a Borromeu, emprega até a expressão novo mundo. As cartas de Pierre Martyr não são privadas, são a fonte de informações dos europeus de então sobre as viagens extraordinárias.

O próprio Colombo, no plano intelectual, também antecipou-se a Américo. Na Relación aos reis de Espanha, em 1497, manifesta a certeza de ter pisado terra firme no Hemisfério Sul e não do Norte.

Pergunta-se, então: o que levou os letrados de Saint-Dié a dar toda a honra a Américo, mesmo sabendo das informações de Colombo e Pierre Martyr? Simplesmente porque ele escrevia melhor. Foi a qualidade literária das quarenta pequenas páginas das cartas que lhe deu a glória.

Para determinar a qualidade, Todorov passa a comparar uma carta de Colombo a outra de Américo. Primeiro, o crítico analisa a composição geral. A carta de Colombo não apresenta nenhum plano bem ajustado. Descreve a viagem, a natureza das ilhas, descreve seus habitantes. Depois, fala da geografia, acrescentando novas notas sobre os índios. Então passa ao capítulo dos monstros e conclui, afirmando que as terras são riquíssimas e agradece a Deus pelos descobrimentos que fez.

A carta de Américo, em contraste, revela alguém com formação retórica. Começa e termina com vários parágrafos que resumem o essencial. E é ali que se encontra a afirmação comovedora da novidade desse novo mundo. No interior desse marco, o texto se divide em dois: a primeira parte faz a descrição da viagem (com uma digressão auto-elogiativa) e a segunda descreve novos países, com três sub-tópicos anunciados já no final da primeira parte, concernente aos homens, à terra e ao céu. A carta de Américo tem uma forma quase geométrica, ausente em Colombo.

Enquanto que as cartas de Colombo são utilitárias, dirigidas aos reis de Espanha, as de Américo são escritas para “perpetuar a glória de meu nome”, “para a honra de minha velhice”. Suas cartas pretendem encantar e distrair seus amigos. O primeiro faz documentos; o segundo, literatura.

O narrador de Américo atrai a atenção do leitor com elogios, com sutilezas, com antecipações narrativas. Além disso, ele produz deliberadamente uma distância entre o narrador que é e o personagem que foi, convidando o leitor a introduzir-se exatamente nesse espaço criado. Quando vai justificar-se, recorre à experiência do próprio leitor. Colombo produz sempre a mesma imagem: a dele mesmo.

Também na escolha de temas, Américo se preocupa com o leitor. Os fatos observados tanto por ele quanto por Colombo não são diferentes. Diferente é a forma de apresentá-los. Américo cria a imagem do bom selvagem, associando a nudez, a ausência de religião e indiferença pela propriedade às representações antigas da Idade de Ouro. Para Colombo, os índios são desnudos, sem religião e, às vezes, canibais. Somente isso. Antes de opinar, ou julgar, por exemplo, o canibalismo dos índios, Américo proporciona ao leitor detalhes picarescos e encanta.

Por último, acrescenta Todorov, Américo elabora mais detidamente a questão da sexualidade. Enquanto Colombo se limitava a dizer que os homens (índios) se contentavam com uma única mulher, Américo enfeita e inventa, açulando a curiosidade e a lubricidade do homem europeu.

O texto de Américo agrada o conjunto dos leitores (europeu comum) e os sábios do tempo, com citações de autores antigos e modernos, Plínio, Dante, Petrarca. Américo afirma ser o único no barco a saber ler as estrelas e utilizar o quadrante e o astrolábio. Como os sábios de Saint-Dié não se comoveriam com a superioridade dos intelectuais-teóricos sobre os marinheiros-práticos? Como recompensa, ofereceram-lhe um continente. Não é por acaso que as imagens das gravuras da época apresentam-nos um Américo sábio.

Por fim, Todorov lembra que Américo apresentava a seus leitores um mundo referencial, conhecido, com poetas italianos, filósofos da Antiguidade e pouquíssimas referências cristãs. Colombo só apresenta imagens dos textos cristãos e das viagens de Marco Polo. Colombo é um homem da Idade Média; Américo, da Renascença. O mundo de Colombo é povoado de monstros, o de Américo de homens. Um é anacrônico, o outro é moderno.

As mesmas qualidades literárias de Américo aparecem em outro texto, no Quatuor Navigationes, analisado por Todorov também.

A partir dessa análise literária das cartas de Colombo e de Américo, Todorov compreende porque este teve um extraordinário êxito, não só em edições mas também na homenagem de Saint-Dié. A fértil descrição fez com que as cartas de Américo fossem as mais ilustradas da época. Assim, as primeiras imagens que procuram captar a especificidade americana são as que ilustram os relatos de Américo Vespúcio.

Para Todorov, foi isso que levou os sábios de Saint-Dié a escolhê-lo como nome do continente. Mesmo que inconscientemente.

Mas permanece uma questão: a justiça estética se apoia ou não na justiça histórica? O papel de Américo corresponde ao papel que ele criou para o personagem Américo? Afinal, o nome do continente glorifica a ficção ou a realidade? Todos os argumentos a favor de Américo poderiam aplicar-se a um texto completamente falso, como o de Psalmanazar.

O que nos leva ao problema da autenticidade das cartas. Quem é o verdadeiro autor delas? Essas cartas contam a verdade? As cartas podem ser verdadeiras, escritas por Américo, e, no entanto, podem ser pura ficção. Mas também podem ser falsas, atribuídas indevidamente a Américo, mas não obstante dizerem a verdade sobre o continente.

Mundus novus e Quatuor navigationes foram as únicas cartas publicadas em vida pelo autor. Depois da sua morte, outras apareceram. Duas são muito interessantes, pois se referem às viagens à América, uma de 18 de julho de 1500 e a outra de 1502. A primeira foi publicada em 1745 e a outra em 1789. Até recentemente, eram consideradas apócrifas. As outras, publicadas em vida, autênticas. Uma das razões para justificar esta decisão era uma diferença de estilo entre as cartas publicadas e as cartas manuscritas. Outra se baseava nas contradições internas das segundas, ou nas inverosimilhanças.

Em 1626, Alberto Magnaghi deu uma reviravolta na questão. Para este especialista, são autênticas as cartas manuscritas e falsas as publicadas. Além disso, Mundus Novus e Quatuor Navigationes contém tantas contradições internas e inverosimilhanças quanto as cartas manuscritas. Não é impossível imaginar que florentinos doutos, usando as cartas verdadeiras de Américo, tivessem produzido os livros para agradar o público leitor através de uma literatura divertida e instrutiva. É mais verosímil que uma publicação seja falsificada do que uma carta manuscrita, destinada ao esquecimento nos arquivos e encontrada somente duzentos e cinqüenta anos depois! Para Magnaghi, seus autores seriam escritores profissionais, que provavelmente nunca saíram de sua cidade.

Roberto Levillier combateu Magnaghi, dizendo que todas as cartas atribuídas ao explorador são autênticas... A questão do verdadeiro autor das cartas não interessa para Todorov, mas sim a veracidade das cartas.

A verossimilhança ou não de detalhes das cartas não resolvem o problema. Em Américo há exageros sobre longevidade e gigantismo dos índios. No entanto, as cartas de Colombo, estas sim incontestavelmente autênticas, contém até mais exageros que aquelas. Os viajantes observam o mundo desconhecido, mas também projetam sobre ele seus preconceitos e fantasmas. As contradições internas das cartas publicadas de Américo podem ser atribuídas ao tradutor do latim, ou até mesmo aos copistas (já que o texto original fora escrito em italiano, perdeu-se e não existe dele nenhum manuscrito).

Todorov compara as duas cartas publicadas e encontra contradições temporais, descritivas e numerais entre elas próprias. Também entre Mundus novus (1503) e a carta manuscrita de 1502 há problemas. Ambas são dirigidas a Lorenzo de Medici. Têm conteúdos parecidos, e datas de redação muito próximas. Não havia necessidade de uma segunda carta, ainda mais que Lorenzo havia falecido no intervalo entre uma e outra. (Mas Américo podia não saber de sua morte.) Mas repetem-se contradições internas.

A análise literária de Mundus novus não advoga em favor da autenticidade. A descrição da natureza é convencional, poderia ter sido descrita a partir de um gabinete de Florença. A parte cosmográfica é pobre e sua função parece ser de indício: veja que sábio sou (e ao mesmo tempo: presumo que tu, leitor, também sejas). A descrição dos índios não acrescenta nada ao que Colombo dissera dez anos antes, embora esteticamente seja bem melhor. O relato da viagem não apresenta nenhum feito memorável, nele não figura nenhum nome próprio. Nada, em Mundus Novus, indica tratar-se de um caso de verdade. Tudo, inclusive a forma harmoniosa do conjunto, advoga em favor da ficção (da qual Américo poderia ser o autor ou não).

Para Todorov, Quatuor Navigationes possui indícios de experiência real, mas seu relato foi retocado. Não pode, portanto, ser tomado como pura verdade, não pode ser tomado como documento digno de confiança. É uma obra feita tanto de mentira quanto de verdade.

Ao longo dos séculos, a balança ora pende para o lado de Américo Vespúcio, ora para o lado de Cristóvão Colombo. E o que se pode concluir disso? Que a verdade e falsidade são indistinguíveis? Vamos nos alegrar com o triunfo da ficção ou lamentar-nos?

Enfim, Todorov declara que sua opinião decepcionaria as duas correntes. Para ele, as viagens de Américo parecem incertas e sua descrição pouco digna de confiança. Contém elementos verdadeiros, mas nunca saberemos quais são. Américo, para ele, está do lado da ficção e não do lado da verdade. E o historiador deve preferir os testemunhos verdadeiros. Mas, por outro lado, Tzevetan Todorov considera os escritos de Américo incontestavelmente superiores aos de seus contemporâneos e sua insuficiente verdade de adequação acaba compensada por uma maior verdade de revelação. Não apenas da realidade americana, mas também do imaginário europeu. Assim, seu mérito é grande, mas não se encontra onde em geral tem sido procurado. Longe de se lamentar por Américo não ter ido mais que um fabulador, Todorov se alegra ao ver que metade da terra carrega o nome de um escritor, ao invés de carregar o nome de um conquistador qualquer, um aventureiro ou um mercador de escravos. A verdade dos poetas não é idêntica a dos historiadores, mas disso não se deduz que os poetas sejam uns mentirosos e que devam ser expulsos da cidade, muito ao contrário.

Não sabemos se Américo escreveu mesmo as cartas e se são exatamente as cartas que podemos ler hoje em dia, mas não cabe dúvidas de que seja ele o personagem-narrador e é como tal que deve ser homenageado. Todorov finaliza dizendo que se ele lamenta alguma coisa, é que Américo não tenha se contentado com esse papel de personagem metade imaginário e que tenha desejado ser, ademais, um autor de todo real: desprendida do livro, a fabulação se converte em mentira.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O livro das coincidências (1)

Para explicar o eterno retorno, Nietzsche dizia que num universo de infinitas possibilidades, todas as possibilidades são possíveis.

Imagino que a noção de predestinação tenha surgido na mente do homem primitivo ao observar as recorrências da natureza, o sol que insiste em retornar todos os dias, as marés que vão e vêm, as estações que se alternam, as estrelas que retornam periodicamente às posições que já ocuparam.

Coincidências são fascinantes. E ensinaram aos artistas que o paralelismo e a repetição reproduzem, na obra, o que à natureza apraz fazer no dia a dia.

Às vezes, numa sala de aula, dois ou três alunos trazem para leitura contos quase idênticos, com o mesmo plot, o mesmo título e os mesmos nomes de personagens. Jung imaginou-nos todos interligados pelo insconsciente coletivo. E a isto que os cientistas chamam de coincidência, ele preferiu chamar de sincronicidade. Que me perdoem os jungianos, mas o mestre era mais poeta que cientista. Aliás, a psicanálise inteira não passa de um ramo da literatura. 

Eu mesmo já vivi situações estranhas e exóticas, de coincidências tão significativas que fariam os menos céticos pensarem em destino, moira e forças determinísticas.

Neste O Livro das Coincidências trarei algumas dessas histórias. A primeira que lhes conto é leve.


O livro das coincidências (1)


Na tarde de 31 de dezembro de 2005, enquanto lia, com prazer e espanto, O poema pedagógico, de Anton Makarenko, encontrei uma referência a Ivan Ivanovitch Deníkin (1872-1947), general que comandou o Exército Branco contra os Bolcheviques entre 1918 e 1920. Por um instante, folhei o livro de Makarenko e me quedei a pensar no horror das guerras. Minha leitura foi interrrompida pela visita de uns primos de Marta, Pacheco e Letícia, que chegavam de Brasília.

Depois que eles partiram, já tarde da noite, aproximei-me da biblioteca e levei a mão às escuras. Veio-me um livro de contos de Scott Fitzgerald. Ao abri-lo ao acaso, dei com o conto "O amor à noite". E eis que encontro nova referência ao general Deníkin!

No último dia de 2005, o fantasma do general russo visitou-me duas vezes. Nunca mais retornou.

domingo, 30 de maio de 2010

Confissões

Recebi, na sexta-feira, a prestação de contas de direitos autorais do primeiro trimestre de 2010, de uma de minhas editoras. Um dos livros de que mais gosto, e ao qual dediquei um esforço especial, Logo tu repousarás também, contos, vendeu, em três meses, 3 exemplares! Isto mesmo. Do Oiapoque ao Chuí, vendi três exemplares. Receberei, sobre estas vendas, 8,47 (oito reais e quarenta e sete centavos)!

Esta é a realidade dos escritores brasileiros. Certo, talvez seja apenas a minha realidade. Na década de 80-90 do século passado, eu vendia milhares de exemplares de Caminhando na chuva, por semestre. Hoje, em editora grande, publicado em São Paulo, vendo entre 25 e 40 exemplares por bimestre. Vendo hoje cinqüenta vezes menos do que vendia há uma década.

O que houve? Por que os meus leitores me abandonaram?

Em primeiro lugar, porque os meus textos ficaram obsoletos. A realidade, e é sobre isso que escrevo, não tem mais apelo mercadológico. Quem se interessa pela vida de sem-terras e pequenos agricultores, e outros infelizes e deserdados que habitam a minha Pau-d´Arco imaginária? Tentei o assassino em série, migrante na capital, e não acertei. Escrevi um livro complicado, demoníaco, como sugeriu um crítico local, O escorpião da sexta-feira, que assusta, incomoda, e os novos leitores querem amenidades. Na era do hedonismo e da imortalidade, lembrar às pessoas que um dia elas irão repousar sob sete palmos de terra, como se dizia antigamente, é fazê-las largar o livro antes que ele queime as mãos desavisadas.

Em segundo lugar, porque ninguém mais compra livros. Ao menos não os meus! Enquanto este blog já foi lido por mais de 12 mil pessoas nos últimos três meses, vendi 3 exemplares de meu melhor livro de contos!

Em terceiro lugar, porque o número de escritores, na última década, multiplicou-se geometricamente, enquanto que o número de leitores (de livros) aumenta aritmeticamente, se é que aumenta. (Suspeito de todas as informações que dizem que os livros estão vendendo cada vez mais). Provei, estatisticamente, que a Feira do Livro de Porto Alegre perdeu, no último lustro (alguém ainda se lembra que isso significa qüinqüênio?), mais de 30 por cento de seus compradores.

Pela inflação no mercado brasileiro de escritores, sou diretamente responsável, pois minhas oficinas lançam no sistema literário dezenas de excelentes novos autores e autoras a cada ano. Há 15 anos, um grande escritor dos pampas me disse: “Pô, tu estás jogando contra a gente! Daqui a pouco, não teremos mais leitores”.

Ele tinha razão.

Só me resta, agora, convencer aos meus alunos a comprarem livros. Alguns, não compram sequer os lançamentos dos colegas. Não conheço tipo social menos solidário que escritor. Eu mesmo, que compro uma boa quantidade de livros de meus alunos em seus lançamentos (mas somente obra que tenha passado pelo meu crivo editorial), não o faço por caridade. A despesa que tenho já está embutida no preço da mensalidade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O poncho (conto)

Na tarde em que regressava a Pau d’Arco, sob os guascaços de uma chuva lateral e violenta, chuva que principiara no dia anterior e que continuaria por mais uma semana, Fernando Kõnning, meu avô, usava ainda o poncho que recebera de presente de Angélica, a mulher que tinha amado com urgência, antes de partir, e quase em desespero depois, que é como se pode amar um espectro. Nem a doçura, a suavidade, o carinho e o amor de Lídia, minha avó, o protegeram das emanações fantasmáticas do passado, dos pesadelos reiterados, da dor sem fim das coisas que não chegam à plenitude, frutas arrancadas à arvore da vida antes do amadurecimento. Calha, a algumas mulheres, o destino de recolher homens destroçados, cuidar de suas feridas, alimentá-los e protegê-los até que readquiram as forças, até que voltem a acreditar na própria capacidade de conquista e sedução. Quase sempre, essas benfeitoras, as mulheres ternas e compassivas, as enfermeiras da alma, recebem em paga o abandono e o desprezo. Fernando, ou porque estivesse cansado, entrava já na meia-idade quando se casou com Lídia, ou porque tivesse desenvolvido por ela algo mais que ternura, aquietou-se, recolheu-se à vida caseira, à felicidade miúda e cotidiana. Passava os dias no alambique, que herdara do pai, a produzir a melhor aguardente da região. Nunca se livrou da culpa, nem da saudade. Nos sábados quentes e chuvosos, quando o cheiro de terra molhada se espalhava pelo ar e a cicatriz na alma pulsava, ele sentava-me aos seus pés, na varanda, e me contava a sua história.

“Na tarde em que regressei, depois de cinco anos e três meses de ausência”, ele principiava a narrativa, concentrado, lento, ausente, como se mastigando as palavras, “compreendi que a saudade, ao contrário do que deveria ser, aumenta mesmo é na direta proporção da proximidade do ser amado.”

Distante da noiva, o amor de meu avô diluiu-se, esgarçou-se, perdeu-se nas sombras dos becos escusos e das ruelas mal-iluminadas de Uruguaiana, Montevidéu e Buenos Aires, e entre as muitas mulheres com quem dividiu catres e lençóis manchados, mas nenhuma esperança. A centenas de léguas, a mulher de olhos negros, de rosto magro e saliente, rosto emoldurado por cabelos longos e lisos, a mulher de fronte alta e orgulhosa transformara-se apenas num ritmo cadenciado, mais som que sentido, a persistir na memória com a renitência das chuvas de abril. No entanto, ao se aproximar do povoado natal, o rosto esquecido retornava tão vivamente à consciência que parecia vê-la sorrindo no horizonte leitoso; no resfolegar do cavalo como que ouvia a respiração sincopada da noiva, seus soluços secos diante do portãozinho na tarde da partida, e no taconeo dos cascos reconhecia a voz da amada: meu menino, eu te espero.

“A hora era a do crepúsculo, e imaginei divisar ao longe o casario dos arrabaldes de Pau-d’Arco. Senti um aperto na garganta, porque sabia que, no meio daquelas luzes desmaiadas, em duas delas, minha mãe e minha noiva me esperavam. O tordilho avançava lentamente, com a cabeça inclinada para baixo e para a esquerda, protegendo-se do vento e da chuva. A distância até a casa encolhia e o tempo, parecia-me, comprimia-se também, e já não eram seis anos, ou quase seis anos, pequinita, o tempo que eu estivera afastado de Angélica, mas três semanas, ou menos. Longe, eu estivera muito longe, porque longe é viajar sozinho. Agora, sentia-a ali, próxima, diante dos meus olhos, a fitar-me com dor e desolação no portãozinho de madeira, recusando-se a compreender que eu precisava partir para a revolução, cumprir meu destino ao lado dos outros dezessete homens que também partiriam, comandados por José Tarquino Rosas”.

Ele inclinava a cadeira de balanço para trás, até o limite, e respirava com a dificuldade dos velhos asmáticos e fumantes. Talvez quisesse perguntar-lhe por que os homens colocam tudo acima do amor, mas eu era uma guria tímida e assustada, incapaz de falar diante de um adulto, mais ainda dele, que não gostava de ser interrompido. Depois, quando cresci, a pergunta perdeu sentido, distanciei-me dos costumes de outras mulheres, como minha mãe e minha avó, deixei Pau-d’Arco com a promessa de não retornar nunca mais àquela terra maldita. Mas ele, ele que tinha partido, que conseguira desprender-se dos pegajosos cheiros da infância, dos ruídos familiares, da modorra das tardes de verão, dos liames invisíveis que tecem pais, irmãos, primos, amigos, ele retornava, atraído pelos dedos longos e delicados que haviam tecido o poncho que o envolvia, dedos que desejava em seu rosto hirsuto, enquanto sentia no nariz, na testa, no queixo, a violência da chuva, chuva que tornava o pano cardado pesado, mais grosso e mais áspero. Era um homem bom, justo e generoso, era assim que

se sentia, é assim que se sentem os homens que amam, e que desejam a mulher inalcançada, mesmo se cruéis, traidores e mesquinhos. Era um homem simples, de hábitos regulares, sem fanatismos, exceto a política, que regressava ao lar, um homem que se sentia protegido pelas forças do bem, sobrevivera a prisões, emboscadas e vendetas da revolução, não sobrevivera?

O cavalo resfolegava, desviava-se dos valetões produzidos pelas carroças carregadas de pesados dormentes. Fernando concentrava-se no caminho. Ou, tantos anos depois, imaginava ter se concentrado. Súbito, e ele o mostrava com um gesto repentino de mão, que me assustava, sentiu um deslocamento quase imperceptível a sua frente, como que a projeção de uma sombra no estradão escuro e encharcado, e um puxão nas franjas do poncho, seguido de um suave dedilhar de acordeona.

É o vento, ele pensou, e era, sim, o vento, era só o vento que soprava com fúria, que arcava os galhos das árvores, que zumbia nos ouvidos e o forçava a viajar com os olhos espremidos, estreitados quase a ponto de nada ver.

Tudo vem em ciclos, correntes alternadas, pulsão e repulsão, onda e repuxo, e o vento também. Depois de mostrar força, o vento arrefeceu e, por entre a espessa cortina de chuva, meu avô divisou, com espanto, mas não sem alegria, o salão de bailes da Esquina Grubert e percebeu que se equivocara, na verdade tinha tangenciado o povoado de Pau-d’Arco, tomara o estradão que conduzia à cidade de San Martin, hoje desaparecida sob as águas da barragem.

“Era como se o cavalo tivesse girado quarenta e cinco graus”, ele afirmava, quase cinqüenta anos depois, girando também a cabeça para o indicar.

“Um homem cansado, um homem faminto, um homem ansioso pode tomar as coisas pelo que não são, a aparência pela realidade, especialmente num entardecer chuvoso, não pode?”, indagava, a buscar na inocência da menina sentada aos seus pés um ponto de apoio contra o absurdo e a loucura, contra a fenda que se produzira no pano do Universo.

No mesmo instante, ainda antes de sofrenar o cavalo e retomar o caminho que o levaria, finalmente, para casa, recordou-se de que fora ali, naquele mesmo lugar, que vira Angélica pela primeira vez havia mais de sete anos.

Ela estava sentada entre duas amigas, e ria, ria com gosto, mostrava a dentadura branquíssima, jogava a cabeça para trás, sacudia os ombros, feliz, iluminada, um pintassilgo alvoroçado. Fernando não era alto, nem seus ombros largos, mas seus olhos tinham gume de faca assassina. Angélica sentiu dor no plexo solar e uma dormência nas pernas. Demorou a reagir ao braço oferecido. Depois dançou leve, flutuou pelo salão. E amou com a intensidade das pombas, das codornizes, das garças-pequenas. Fernando deteve-se, indeciso, um momento, apurou o ouvido e, apesar do vento, apesar do repique da chuva nas abas do chapéu, reconheceu, nos floreios da acordeona, que outra vez se fez ouvir, os compassos da milonga que o levara a encorajar-se e a convidar Angélica para dançar.

Estava exausto, cavalgara o dia inteiro, queria apenas um banho quente, um café com cardamomo, afagos de mãe e abraços de pai, queria chegar logo a Pau-d’Arco e rever a noiva, acertar com os sogros os detalhes do casamento, a lista dos convidados, o lugar em que fariam a festa, mas a música triste e arrastada continuava a colear na noite, a arrastar-se sob a chuva torrencial, a perder-se na mataria fechada e a doer no peito de meu avô como uma chaga.

O amor precisa de suportes para ser revivido, o amor precisa agarrar-se às coisas, aos objetos, à luz oblíqua da lua, às rosas murchas, às páginas amarelecidas das cartas e dos diários, ao nitrato de prata das fotografias para sobreviver à voracidade do tempo e do esquecimento. Como que por instinto, ou por cacoete adquirido nos anos de andanças pelo continente, meu avô alisou o poncho e sentiu nele, no forro de baeta e em si mesmo, o amor vivo, quente, o amor expectante.

“Guardei o poncho, pequenita, a vida inteira. Será teu, quando eu me for. Pra te proteger da solidão e das doenças”, ele murmurava, enchendo-me de esperanças de um dia possuir o objeto mágico e salvar-me com isso do ciúme dos deuses, porque eu ainda não tinha compreendido que fora o poncho, exatamente o poncho, que o submetera à solidão irredimível e à doença mais perniciosa e letal, a de viver com os olhos voltados para o passado.

Fernando puxou as rédeas, roseteou o tordilho nas ilhargas, mas o cavalo como que resistiu, deu dois arrancos para a frente e estacou diante da porta iluminada do salão de bailes. Vencido, meu avô decidiu desmontar. Ao retirar o pé do estribo, já no chão, sentiu algo roçar no poncho outra vez e supôs que fosse um ramo de espinilho, ou a própria roseta da espora. Amarrou o tordilho no palanque e, antes de entrar, ao virar o rosto para trás, deu-se conta de mais um engano. Já era noite fechada, o entardecer fora ilusão dos desmaios de luz da lua escondida por detrás de nuvens pesadas contra o vapor da chuva sobre a terra quente.

O salão fervilhava, os casais rodopiavam na pista, a copa estava atulhada, ele precisou meter-se ali, meio à força, usando os braços para abrir caminho, queria entregar o revólver e a faca, que era do costume da época desarmar-se, abandonar as armas maiores e mais visíveis.

“Sempre se escondia um ferro curto no cano da bota, que ninguém era tolo pra morrer de descuido”, ele dizia, armando em mim a falsa expectativa de uma luta de punhais, que não viria.

“Deixei as armas, o chapéu e o poncho na copa e aproximei-me da pista de danças. Tinha as roupas molhadas, mas não sentia frio, não ainda, e, além disso, a aguardente pura, de alambique, ajudava a esquentar o corpo”, ele continuava.

“No primeiro trago, reconheci a cachaça produzida pelo meu pai. Mais que a boca, a ardência queimou o espírito”, dizia, fitando-me com seus olhos ternos, compassivos e desesperadamente azuis. Para não fraquejar, ou porque fraquejava, meu avô batia as pálpebras, coçava a cabeça, ajeitava-se na cadeira de balanço.

“Passei e repassei os olhos pelos grupos de mulheres, atravessei o salão muitas vezes. Eu não pensava em dançar, doíam-me as costas, os braços, as pernas. Sequer sabia por que tinha entrado, deixara-me arrastar pelo cavalo, pela luz trêmula que fugia da porta principal, pela magia da milonga e, por que não dizer, pela saliva abundante que a simples lembrança da aguardente me provocava. O arruído, o movimento e a cachaça foram me prendendo e eu fui ficando. Aquilo, e o que viria depois, tinham hora para acontecer? Se eu tivesse partido antes, ou se não tivesse entrado no Salão Grubert, a coisa teria acontecido? Duas, talvez três horas mais tarde, no instante mesmo em que decidi retornar à estrada, arregalei os olhos de susto”, ele continuava e abria bem os olhos azuis e profundos que eu tanto amava, “arregalei os olhos de susto e não consegui acreditar no que vi. Sentada no meio de um grupo ruidoso de moças, com o cabelo em coque, um vestido florido que me era vagamente familiar, vestido que reconheci somente depois, Angélica sorria, ou quase”.

Com a sensação de que não vivia aquele instante, mas outro, afastado no tempo, Fernando aproximou-se da mulher que amava, a mulher que tinha deixado em Pau-d’Arco havia quase seis anos. Tímida, extremamente tímida, e silenciosa como um riacho no pampa, ela não ousou levantar os olhos para o noivo, mas aquiesceu em dançar. Ele não estranhou, porque era assim, tinha sido sempre assim, e assim fora desde o primeiro encontro. A intimidade seria construída depois, depois das bênçãos, depois dos fogos, depois dos festejos de casamento. Angélica ouviu calada a narração dos feitos revolucionários, a violência dos combates e das degolas, o frio do minuano nos acampamentos, a fome, a febre dos soldados feridos, o delírio e a saudade. Não indagou as razões do noivo, que não regressou com a coluna de José Tarquino Rosas, o Intendente de San Martin, ao final dos combates.

“O cheiro”, diria meu avô, “o cheiro não era o mesmo, minha noiva tinha cheiro de madressilva, mas naquela noite ressumava à lavanda”.

Entre os muitos equívocos de um homem cansado, somava-se mais este. O que, de fato, Fernando sentiu, foi o cheiro de mofo do vestido que estivera guardado em sua longa ausência, dobrado na cômoda, esquecido entre as anáguas e os corpetes. Sim, o vestido tinha estado enclausurado, longe da luz, como a própria noiva, que permanecera em casa nos dias de abandono. Ela resistira ao coro das amigas e dos parentes, que afirmavam, com absoluta certeza, que o noivo não regressaria, que estava casado em Alegrete ou Santiago do Boqueirão. Angélica mantivera-se fiel até nisso, no direito que tinha de se divertir, de tornar
mais leves os dias pesados. O cansaço, com certeza tinha sido o cansaço, ou a emoção de tê-la outra vez contra o peito, impediu Fernando de fazer a pergunta óbvia: Como é que ela sabia que o encontraria ali, no Salão Grubert? Ou então: Por que esperara tanto para regressar ao mundo das festas e dos bailes, ela que era tão jovem e tão linda, e por que só o fazia naquela noite, noite em que ele retornava?

Dançaram, ou ele dançou com ela, já que Angélica se deixou levar.

“Contei-lhe tudo e foi como se não tivesse me ouvido, sequer uma queixa diante das traições, um murmúrio sequer de espanto frente às mortes e aos perigos. Suas mãos frias, às vezes, se crispavam e eu podia sentir as suas unhas nas minhas costas”, ele prosseguia para, em seguida, mergulhar num silêncio aterrador.

“Não me perdôo por não ter percebido”, ele tornava a falar, muito tempo depois, contendo os soluços. Se delongava, meu avô, na descrição dos volteios, das marchas e contramarchas, dos passos que ambos executaram naquela noite que ficaria para sempre impressa na sua memória, e na minha.

Angélica tinha a boca pequena, os dentes um pouco projetados para a frente, um sorriso esquivo, a tez leitosa e pintalgada de sardas, os braços longos e finos, magra, muito magra, e mais alta que Fernando. Dançaram, os dois, polcas, valsas, chimarritas, bugios, xotes, milongas e chamamés, até que os músicos guardaram os instrumentos.

“Súbito, senti um frio no estômago, minha vista se escureceu. Percebi, então, que Angélica estava sozinha no baile, sem os seus pais, que sempre a acompanhavam. Teria se transformado numa dessas mulheres de vida fácil, que percorrem os salões atrás de forasteiros que não as conheçam?”

O convívio com prostitutas, que seguem as tropas, ou com as que os soldados buscam nos arrabaldes das cidades, levou meu avô a julgar mal a mulher que o amava. Fechou-se num mutismo infantil e despropositado, e perdeu, assim, a oportunidade de aproximar-se, pela última vez, da noiva.

Apanhou suas coisas na copa, as armas, o chapéu e o poncho, e arrastou-a para fora. Chovia ainda, a mesma chuva lateral do entardecer, mas já sem violência. Para protegê-la, vestiu-a com o poncho.

“Não sei se foi a luz do salão, ou talvez a claridade da madrugada, mas Angélica ficou como que aureolada, a tremer sob o tecido que ela própria havia tramado. Dela partira e a ela retornava. Era como se um ciclo se fechasse e a chuva que despencava fosse a mesma chuva que despencara na tarde da minha partida.”

Fernando enfiou o pé no estribo, montou, deu a mão à noiva, que saltou às suas costas.

“O poncho é teu outra vez”, ele disse, rude, cego, enlouquecido de ciúme, tentando feri-la, como se com isso devolvesse o compromisso, como se o objeto que a protegia da intempérie fosse o símbolo da aliança que se estabelecera entre eles. Meu avô não podia imaginar que Angélica viesse a devolver-lhe o presente, com o mesmo amor e carinho da primeira separação, ainda na tarde desse dia que então se inaugurava.

Entre o Salão Grubert e o povoado de Pau-d’Arco, Fernando remoeu um ódio tolo, construiu um passado falso para Angélica, passado que o redimia de seus erros e arrefecia a sua própria culpa. Se não fora capaz de esperá-lo, ele pensava, era indigna de seu amor. Assim, à tarde, quando visitasse a família da noiva, devolveria a aliança, romperia os laços de honra. Imaginou-se em casa, em seu quarto de solteiro, recolhendo, numa caixa de sapatos, as cartas, as abotoaduras, um prendedor de gravata, um marcador de livro de metal, uma espátula e outras quinquilharias com que os namorados costumam tutear-se. São tolos, os amantes, que imaginam devolver os sentimentos com as coisas devolvidas.

Diante do portão da casa de Angélica, depois que ambos desmontaram, a crise de desconfiança cedeu. Odiou a si mesmo por tê-la julgado infiel. Não foi capaz de suportar a própria comoção e chorou. Terna, ela recolheu suas lágrimas, abraçou-o com força, sempre em silêncio. Era como se ele não tivesse partido, como se continuasse ali, tentando consolá-la, como se a quisesse convencer ainda da importância da revolução. Por um instante, teve a sensação de que nada havia acontecido, a mesma chuva insistia em obscurecer o mundo, o mesmo medo de não tornar a vê-la enrodilhado no estômago, a mesma dor do abandonador. Fernando fechou os olhos por um instante e quando os reabriu percebeu-se sozinho na manhã recém-nascida. A chuva tinha cedido, ouvia os pássaros no arvoredo atrás da casa e cães a ladrar nas cercanias. Súbito, uma sensação de calafrio percorreu seu corpo, como se estivesse sendo observado. Voltou-se para a janela do primeiro andar e viu Angélica de relance, atrás da cortina que se fechava, sem saber que aquela imagem reproduzia outra, uma que não fora capaz de ver, porque não fora capaz de olhar para trás na tarde em que partira.

Como se fragmentasse o tempo da narrativa, meu avô abandonava a cadeira de balanço, dava algumas passadas pela varanda, escorava-se numa das vigas que sustentavam o alpendre. Depois, elidindo o trajeto entre a casa de Angélica e a de seus pais, ignorando a pintura de um café da manhã de filho pródigo e os sonhos de um sono justo em que mergulhara das nove às três horas da tarde, descrevia-se outra vez diante do portãozinho de madeira, sob a mesma chuva, mas com disposição de espírito muito diferente. Tinha sido injusto, precipitara-se em conclusões odiosas, felizmente não verbalizadas. O amor tudo pode suportar, exceto as palavras de fogo, aquelas que sabemos ferinas, maldosas, que atingem o outro no que ele tem de mais recôndito e sagrado. Estava banhado, vestira o terno guardado com zelo pela mãe, fizera a barba, perfumara-se.

“Toquei a aldrava várias vezes, até ser atendido pelo velho Armando. Um fantasma, se eu fosse um fantasma, teria causado menos impacto”, dizia meu avô e alisa va a face, como que a certificar-se da própria corporeidade.

A cena se repetiu diante de Luísa, a mãe de Angélica, cuja perplexidade transformou-se em demorado pranto. Era justo que se assustassem, era justo que resistissem à sua volta. Tinha decidido não explicar nada, fazer de conta que o tempo da ausência não fora tão dilatado assim. Agora, ali, ele próprio se perguntava: Por que não regressara antes? Depois da assinatura da paz em Pedras Altas, envolvera-se em negociatas, contrabandos, jogatinas. E se afastara cada vez mais de Pau-d’Arco. Os pais da noiva, recuperados, menos nervosos, convidaram-no, enfim, a passar à sala.

“Sentei-me no sofá e suspirei aliviado. Agora sim, agora eu podia dizer que estava em casa”, dizia Fernando, a cofiar o bigode branco e bem-aparado. Por mais que se esforçasse, não conseguia reter as lágrimas, que desciam pelas rugas de seu rosto, rugas que eu tomava por cicatrizes da revolução.

“Não se ouvia a chuva, que persistia, mas pelas persianas entreabertas podia-se ver a tarde nebulosa”.

Na sala, com seu balançar implacável, o pêndulo do relógio contabilizava as perdas e os ganhos, as palavras e os silêncios, os desejos e as indiferenças dos homens, das mulheres, dos bichos e das coisas. No princípio, a conversação remanchava, como que reboujava ao redor de ninharias, comentários a respeito da estação chuvosa, a certeza de quebra na safra de grãos, os planos de Armando de comprar um automóvel.

“Aquilo dava nos nervos, parecia proposital. A mãe de Angélica sequer me encarava e o pai me confundia com um vizinho, um amigo, um parente distante”.

Algum tempo depois, Luísa levantou-se, dirigiu-se à cozinha. Meu avô, sentado no canto esquerdo do sofá, esperava, impaciente, a descida da noiva. Apurava o ouvido, tentava perceber os ruídos costumeiros no segundo andar, os passos leves no assoalho, o ranger de portas, os estalidos secos no madeirame dos degraus, e nada.

Luisa retornou com café e bolachas de polvilho, que depositou sobre a mesa de centro.

“Pensei que Angélica não estivesse em casa, que saíra para visitar alguma amiga, por isso esperei ainda meia hora, talvez mais”.

Tempo que se dividiu, para meu avô, em intermináveis ponderações de Armando sobre a situação política do Estado, as movimentações de Getúlio Vargas, a crise da bolsa, a situação do banco pelotense, questões que, naquela tarde, perdiam o sentido para o homem apaixonado que desejava, apenas, rever a noiva e entregar-se, enfim, ao único assunto que justifica a existência.

“Bem”, ele disse, fazendo estalar a mão espalmada na coxa, “estou aqui para arreglar as coisas para o casamento”.

E, então, um grito, o que se ouviu foi um grito, de dor, de desespero, de ódio represado, e uma grande movimentação na sala. Sem que atinasse com o que estava acontecendo, Fernando viu Luisa subir os degraus da escada quase correndo, seguida de perto pelo marido. Meu avô quedou-se no primeiro andar a ouvir, badalada por badalada – pois contou uma a uma –, o relógio marcar cinco horas da tarde.

“Nunca mais vi Luísa, que me odiou até a hora da morte. Não a condeno por isso, eu teria feito a mesma coisa”.

Quando Armando desceu, meu avô soube a verdade:

“Todos os dias, ao entardecer, por mais de dois anos, minha filha ficava diante do portãozinho, a mirar a estrada que tinha te levado. Ela esperou, com a paciência e a dedicação que só as mulheres sabem ter, enquanto suas pernas conseguiram sustentar o corpo fraco. Depois, quando a tísica avançou e não conseguia ficar longe da cama por muito tempo, contentava-se em fitar a lonjura pela janela, a murmurar, já sem juízo e em agonia, o teu nome”.

Chovia, chovia sem parar, uma chuva imemorial, definitiva, como se os céus quisessem lavar a terra de todo o mal. Primeiro, Fernando se desconsolou, ganiu de desespero, não acreditou que fosse verdade, quis subir a escada para ver Angélica, e depois convenceu o pai da noiva a levá-lo até o cemitério, queria ver com os próprios olhos a terra que a tinha recebido.

“Fomos a pé, no meio do temporal que desabava sobre o vilarejo”.

Hoje, mais de sessenta anos depois, imagino os dois homens, inclinados sob a chuva e o vento, percorrendo as alamedas do cemitério. À imagem agrega-se a lembrança de mim mesma, pasma, lívida, sem fôlego, sentada diante do velho, a ouvi-lo ajustar contas com o passado. Sinto, consigo sentir, o cheiro de terra molhada, e ouço, consigo ouvir, o ribombar dos trovões. Daqui onde estou, nesse quarto repleto de livros e dos meus próprios amores e fantasmas, posso ver o poncho, que herdei, dependurado atrás da porta. Impressiona-me que, apesar dos anos, das revoluções, das tempestades e das insolações, seu pano ainda resista. Sempre que o minuano açoita esta cidade que escolhi por casulo e tumba, visto-o e estremeço, que me comovem a ternura e a grandeza com que foi trançado. Sinto em sua trama os dedos longos e finos de Angélica, e, na sua aspereza, os sobressaltos de uma longa espera.

O que de amor foi tecido, de amor permanece.

Sobre a tumba, encharcado, mas delicadamente estendido, meu avô reencontrou o presente que recebera da noiva na véspera da partida.

(In: KIEFER, Charles. O pêndulo do relógio & outras histórias de Pau-d´Arco. São Paulo: Manole, 2009).

terça-feira, 25 de maio de 2010

À espera do grande engarrafamento

Hoje, ao abrir a caixa postal do Refúgio, escritório em que me escondo para escrever, encontrei quatro faturas atrasadas de conta de luz. O que significa que há mais de quatro meses não escrevo nada.

Crise. Uma profunda "crise escritural". Já recolhi meu romance da editora, não quero mais publicá-lo, já decidi "dar um tempo" a mim mesmo, para examinar em que encruzilhada tomei a via errada. "Dar um tempo", na linguagem eufemística dos amantes é "sair de fininho", "deixar que as coisas se auto-destruam".

Ou será uma grande desilusão com a própria literatura, o que me aflige?

O argumento da falta de tempo é pífio, auto-enganador. Escrevi meus melhores romances e contos em épocas em que trabalhava dezesseis horas por dia. Escrevia aos domingos, de madrugada. em estações rodoviárias, dentro de ônibus e aviões, à mão, sem as facilidade eletrônicas que tenho hoje.

Não. Falta de tempo não é desculpa. É falta de fé. Em mim, na função da literatura, na humanidade.

Antes, como dizia o Sergio Faraco, eu escrevia com a sensação de que ia salvar alguém. Hoje, vejo que não há mais ninguém a ser salvo. Estão todos confortáveis, domesticados e bovinamente felizes. O petróleo jorra do fundo do mar, devastando a vida marinha, e ninguém se espanta, ninguém clama. Há trinta anos, havia gente que se acorrentava às árvores, para que não fossem derrubadas. Onde eles estão? Onde estamos? O que houve conosco? Fomos abduzidos? Ou a caverna platônica se expandiu tanto que tomou conta do planeta?

A solução talvez esteja num imenso engarrafamento, um engarrafamento de proporções apocalípticas, como aquele do conto de Julio Cortázar. Parados na Ipiranga, Sertório, Independência e Farrapos, talvez tenhamos tempo de refletir. Talvez uma saudável epifania nos acolha no meio do congestionamento.

Decisão tomada. Vou andar com o laptop no carro. Quando a cidade parar, sintonizarei a Rádio Universidade, e, entre um e outro acorde de Brahms ou Mozart, talvez eu volte a fingir que sou escritor.